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11 de setembro

Foi já há 22 anos que o maior atentado terrorista de que há memória modificou o nosso quotidiano. Os aviões lançados contra as “Torres Gêmeas” em Nova Iorque e sobre o “Pentágono” em Washington vieram alterar as nossas vidas, com a presença de uma nova forma de terrorismo. O terrorismo não começou em 2001. Durante o século XX existiram várias expressões de terrorismo. Mas eram manifestações localizadas, com alvos bem determinados. Depois de setembro de 2001 assistimos a duas mudanças fundamentais – a generalização geográfica do terror e a utilização de ataques suicidas. Com o ataque a ser levado a cabo por membros da Al-Qaeda, que tinham ligações ao Afeganistão, foi no terreno e com milhares de tropas que os EUA abriram a “Guerra ao Terror”. O inimigo, no entanto, não era convencional. Não foi no século XXI que nasceu o terrorismo. Mas foi neste século que o vimos tomar o lugar de ‘inimigo número um’. Um inimigo escondido, disperso, incógnito, muito longe dos históricos conflitos entre nações. O “11 de setembro” ainda necessitou de uma planificação exaustiva, que demorou anos e uma complexa estrutura de apoio. Mas nestes últimos anos temos assistido à execução de atentados cada vez mais violentos e sanguinários por parte dos chamados “lobos solitários”, indivíduos que atuam sozinhos, ou em células muito pequenas, sem nenhuma ligação física a qualquer grupo, mas que se mostram sensíveis às mensagens de terror divulgadas nas redes sociais. Há vário exemplos, infelizmente, sendo o mais paradigmático o acontecido em Nice, em 14 de julho de 2016, dia nacional da França, onde apenas bastou um camião para perpetuar tamanha tragédia.
A grande verdade é que este terrorismo já ganhou! Apesar de todas as proclamações de todos os governantes, as nossas vidas mudaram. Basta haver um qualquer objeto abandonado num aeroporto, estação ou avenida e instala-se o caos, com evacuações, encerramentos, cortes de linha, etc., etc.. Somos hoje menos livres do que éramos há 22 anos. Começamos a aceitar mais limites à nossa liberdade individual, em nome de uma segurança por vezes paranoica e que, pelos vistos, não tem resolvido nada. A ameaça do terrorismo levou a alterações substanciais na segurança dos aeroportos, mas abriu também um caminho duvidoso e uma discussão, que ainda hoje se prolonga, sobre até que ponto os direitos individuais se sustentam, perante os receios gerais de uma ameaça global.
Os Estados Unidos ainda estavam no Afeganistão e já nova guerra se abria no Iraque. Com o argumento nunca comprovado das armas de destruição em massa, foi em Portugal, nas Lajes, em pleno Atlântico, que Durão Barroso recebeu George W. Bush (EUA), Tony Blair (Reino Unido) e José Maria Aznar (Espanha). Foi cá que foi dado o ‘ok’ à invasão e a mais violência. Sondagens de 2003 mostram que, embora nenhuma ligação concreta tenha sido encontrada entre o regime do ditador Saddam Hussein e os ataques de 11 de Setembro, a maioria dos norte-americanos (cerca de 70%) acreditava na altura que os ataques tinham tido o ‘dedo’ de Saddam.
Saddam foi derrubado, andou escondido até ser detido e acabou enforcado a 30 de dezembro de 2006. Já Osama bin Laden, o fundador da Al-Qaeda e para muitos o grande ‘arquiteto’ dos ataques do 11 de Setembro, acabaria morto numa operação de forças especiais norte-americanas, em maio de 2011, numa ação de puro terrorismo de estado norte americano. Curiosamente, o mesmo ano em que tinha início um conflito interno na Síria, que iria marcar em absoluto não só o Médio Oriente mas a própria ideia de terrorismo e extremismo islâmico. Um que ainda se prolonga nos nossos dias.
Foi entre os escombros de um Iraque desfeito e numa Síria dividida entre várias fações que vivemos a ascensão do autoproclamado Estado Islâmico, que não é estado nem é islâmico. Passaram 22 anos desde o ataque de 11 de Setembro. Hoje em dia é consensual que o caos social, económico e político em que o Iraque e a Síria se tornaram foram “porta aberta” para a ascensão do Daesh. No entretanto, centenas de milhares de pessoas perderam a vida no conflito na Síria. Juntam-se a muitas outras vítimas não só da guerra mas de atentados no Iraque e no Afeganistão. O extremismo islâmico ainda existe e a “Guerra ao Terror” de Bush, à data Presidente dos EUA, é expressão que, da teoria à prática, trouxe mais incerteza.
Mas esta data de 11 de setembro tem mais horrores e terrores associados. Em 1973, numa das mais sórdidas, violentas e desprezíveis ações da política externa do Estados Unidos, teve lugar um golpe de estado no Chile, com o bombardeamento da Força Aérea norte americana ao palácio presidencial la Moneda, em Santiago do Chile, culminando no assassinato do presidente Salvador Allende, um socialista marxista, que havia sido eleito em 1970. Os EUA não permitiram que um governo de esquerda que estava a por em causa os interesses de multinacionais americanas, tivesse sucesso. E a CIA promoveu e pagou greves em setores fundamentais da economia chilena para gerar crises de produção, patrocinou a criação de grupos terroristas neonazis e colocou no poder o general Augusto Pinochet, responsável por, durante 17 anos, até 1990, uma das ditaduras mais violentas dos tempos modernos. A ditadura de Pinochet matou muito mais do que as cerca de 3 mil pessoas resultantes dos ataques de 11 de setembro de 2001. Mas quem é que hoje se lembra disso? Não foi na Europa nem nos EUA e serviu para travar um governo e um presidente que se preocupavam verdadeiramente com as condições de vida da população e não com os interesses do grande capital. ◄

 

  • Publicado no Jornal PALAVRA, edição de setembro 2023

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