jornalpalavra

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24-01-2021

Exerci pela primeira vez o meu direito ao voto nas longínquas eleições legislativas intercalares de 2 de dezembro de 1979 tendo logo de digerir um resultado desagradável, de acordo com as minhas convicções e opções ideológicas. Foi a primeira vitória da coligação AD e logo com maioria absoluta. Daí para cá, nas várias dezenas de atos eleitorais que a democracia portuguesa já comporta, foram mais as vezes em que fiquei descontente do que aquelas em que os resultados me trouxeram satisfação. As reuniões de amigos que se estabeleceram em cada noite de apuramento de resultados eleitorais sempre foram vivas, discordantes, polémicas, acaloradas, porque os amigos/as com quem me juntei professam opções ideológicas muito diferentes. Mas, mais ou menos agradado com o desempenho de cada partido/candidato, no fim da noite eleitoral, sempre concordei que a civilidade e a democraticidade do ato tinham sido mais uma prova da vitalidade do nosso regime democrático. O ato de eleição do Presidente da República, ocorrido no passado dia 24 de janeiro causou-me uma preocupação e um mal-estar como nunca me tinha acontecido em nenhuma ressaca eleitoral. E eu já perdi muitas vezes… A revelação de que quase meio milhão de portugueses deu o seu voto a André Ventura fez-me, desde logo, considerar que compensa ser mal educado, mentiroso, cobarde, xenófobo e racista, não ter uma centelha de solidariedade com algumas das populações mais desfavorecidas da nossa sociedade. E eu não quero pensar que o meu país dá guarida a gente desta estirpe e que meio milhão de portugueses se reveem nas ideias deste indivíduo. Chamei-lhe mal educado porque foi como ele se revelou nos debates com outros candidatos, ou quando chamou “avô bêbado” a Jerónimo de Sousa e fez insinuações torpes e ordinárias relativas ao Báton vermelho que Marisa Matias usa, comparou Marcelo Rebelo de Sousa a um esqueleto, entre outras manifestações reprováveis. A forma truculenta, interrompendo tudo e todos, não permitindo que se explicasse qualquer ideia, pelos vistos foi do agrado de meio milhão de portugueses. Só me custa aceitar que vários analistas políticos tenham atribuído vitória a Ventura em vários dos debates, como se alguém que não respeita as regras possa ser considerado vencedor.

Eu percebo que o voto em Ventura é, em muitos casos, talvez até a maioria, um voto de desencanto, de protesto. E se não tivesse percebido teria tido dezenas de comentadores e até amigos, muito preocupados em justificar o voto neste candidato. Mas as explicações ainda me deixam mais indignado! Para começar, não percebo o que significa ser “um candidato antissistema”, porque o nosso sistema político é uma democracia. Se, com isso, Ventura quer dizer que é antidemocrático, já sou capaz de concordar. Mas todos os motivos que levam meio milhão de portugueses a verem em Ventura uma encarnação idílica da pureza, caem pela base. Quando o presidente do “Chega!” se considera o contrário da corrupção, das bandalheiras dos outros partidos, dos dinheiros mal explicados com os financiamentos dos partidos, quando fala de todos os males da vida democrática e do que tem sido, segundo ele, a tragédia dos últimos quarenta e tal anos, devemos lembrar-nos que o próprio Ventura não explica quem são as fontes de financiamento do seu partido. Quando Mariana Mortágua, no final de novembro lhe lembrou, em sessão na Assembleia da República, que meia dúzia de financiadores do seu partido tinham ligações fortes ao caso Espírito Santo, percebeu-se bem o seu mal estar, tendo ficado estranhamente calado. Quando, em 25 de novembro, se votou uma proposta do BE que impedia a transferência de várias centenas de milhões de euros para o Fundo de Resolução, Ventura anunciou que iria votar contra para depois, em plena sessão se abster. Mas como a votação foi repetida, Ventura reconsiderou e afinal votou a favor. No mesmo dia esgotou todas as hipóteses de voto e sobre o mesmo assunto, o que é único na história do nosso Parlamento. As várias alterações que Ventura foi fazendo no programa do seu partido (cinco em sete meses), mostram como a coerência não é um valor que Ventura preserve. Como outros, comuns à maior parte dos cidadãos. Várias vezes Ventura clamou que era contra o Serviço Nacional de Saúde e o Ensino Público. Mas afinal parece que não! O programa do partido vai mudando consoante o balanço e como a sociedade reage às propostas. Como é que os portugueses que estão desencantados com a nossa democracia acham que a resposta é o partido do Ventura? Até a sua legalização foi envolta em atos duvidosos, com assinaturas falsas pelo meio e outras atribulações que seriam altamente condenáveis se ocorressem com algum dos partidos já implantados. O congresso do “Chega!” ocorrido em Évora em setembro, foi um dos espetáculos partidários mais vergonhosos, onde a luta pelo poder foi completamente escandalosa, com episódios absolutamente nojentos, para além de serem ultrapassadas todas as regras sanitárias de prevenção da COVID 19, tal como, em tempo de confinamento, um jantar de campanha com 170 pessoas, sem máscaras, sem distanciamento social! Se isto acontecesse na “Festa do Avante!” ou numa manifestação de trabalhadores no 1º de Maio, não haviam de faltar críticas e condenações.


O que mais surpreende é a ausência total de ideias executáveis para a governação de um país. Ouvindo o arrazoado que são os comícios de Ventura e do seu partido ficamos a perceber que os ciganos, os refugiados que “chegam em barcos com ipads e iphones” (Ventura dixit) e os beneficiários do RSI são os grandes responsáveis pelo estado em que está Portugal. Portanto, expulsamos os ciganos, recusamos entrada aos refugiados (não me lembro de haver pouco mais do que uma centena de refugiados em Portugal) e cortamos o RSI deixando que a pobreza aumente ainda mais, porque os atuais beneficiários são malandros que não querem fazer nada e temos um país desenvolvido, com PIB ao nível do Luxemburgo e dos países nórdicos. Afinal é simples de resolver!
Não digo que todos os votantes em Ventura são pessoas deploráveis. E isso é o que mais me magoa. Há várias pessoas que considero de boa índole, algumas por quem tenho amizade, que podem ter tido essa opção de voto. E não aceito que o desencanto com a atual situação portuguesa possa pôr em causa a vivência democrática que tanto nos custou a implementar e pela qual tantos portugueses sofreram e morreram.◄