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Relações Mediadas

Com o dever de recolhimento domiciliário imposto pelo estado de emergência decretado, o confinamento impôs-se. Estar e ficar em casa nunca foi tão urgente e necessário para travar os contactos físicos através dos quais ocorrem as infeções pelo novo coronavírus, que após duas semanas os resultados são notórios ao nível da redução de novos casos diários de infeção.
Esta permanência em casa, isolados, sair só quando estritamente necessário, conduz ao isolamento social. Por força da restrição de contactos, ficamos mais sós. A única alternativa para sair em segurança é através dos meios de comunicação que temos ao nosso alcance: TV pela evasão, smartphones e computadores que nos fornecem redes sociais. Eles são efetivamente o meio para contactar com o mundo, com os outros, nunca se comprou tanto pela internet, nunca usamos tanto os telemóveis para nos encontrarmos, para vermos espetáculos, para acedermos a serviços do estado, para jogar videojogos ou para “ir à escola”.
As relações que anteriormente se faziam face a face são agora estabelecidas com uma máquina, sem necessidade de presença de pessoas, podendo inclusive ser diferidas no tempo. As relações entre pessoas, são agora estabelecidas entre pessoa e máquina, sem necessidade de que do outro lado esteja necessariamente uma pessoa.
Nas relações com as máquinas não existe a reciprocidade presente nas relações entre pessoas, nem emoção que tanto a caracteriza, são impessoais. Sem percebermos, e por necessidade e imposição, estamos a tornar-nos cada vez mais dependente dos “ecrãs”. Esta relação causa dependência, e modo especialmente grave nos mais jovens.
Para sobrevivermos a este isolamento social, porque somos seres sociais ainda que privados da sociabilidade, precisámos de ir para o espaço social virtual, para as redes sociais, onde acabamos por ver o que cada um come, os bolos confecionados, os exercícios físicos que fizemos, dando uma falsa sensação de proximidade. Através destas redes sentimos que pela frequência e facilidade a que acedemos a conteúdos de outras pessoas, estamos próximos, mas na realidade o acesso à interioridade (como nas relações presenciais) não acontece. Não há aquele diálogo, apesar de poder haver palavra oral ou escrita, que desconstrói e/ou recria, que nos funda ou aprofunda.
E o mais estranho é que parece que estamos a gostar da tecnologia, da forma e do conteúdo da comunicação, satisfazemo-nos com isso e estamos cada vez mais dependentes.◄

 

  • Publicado no Jornal PALAVRA, edição de fevereiro 2021