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“Fui para Itália por amor”

Coração universal, Ivone Chambelo, saiu de Reguengos de Monsaraz há vinte anos e construiu uma família com o marido Stefano e com as quatro filhas, Maddalena, Clara, Elena e Martina. Fisioterapeuta, trabalha num hospital. Tem saudades de Portugal, canta e reza em português mas pensa e fala em italiano. As filhas vão aprendendo o português aos poucos e gostam de vir a Portugal por causa da Ucal, das padinhas e das torradas com manteiga com sal e, claro, das sopas da avó.

 

“Fui para Itália por amor”. É assim que Ivone sintetiza a mudança de 180º que a sua vida sofreu há 20 anos. De forma simples, alegre e que nos faz perguntar por mais.
Ivone Chambelo nasceu e cresceu em Reguengos de Monsaraz e, quando chegou a altura de escolher um curso superior, achou que Fisioterapia, no Estoril, era a escolha certa. Terminou o curso e, seguindo a lei da vida, começou a trabalhar. Mas acabou por tomar “uma decisão que não era programada”, explica.
Passados três anos de namoro, a ideia era que Stefano, o namorado, viesse para o país que vira nascer Ivone. “Eu já trabalhava e tinha casa em Lisboa e ele estava a acabar a universidade. Por isso tentámos pedir mudança de curso da universidade de Milão para o Instituto Superior Técnico, em Lisboa”.
Em 2000 a comunicação entre universidades não era o que é hoje, explica a reguenguense. E exigiram que ele repetisse vários exames. Estando num curso de física com disciplinas difíceis, a ideia de repetir exames numa língua diferente e correr o risco de baixar a média não agradou a nenhum. Por isso, o pensamento mudou: “começámos a pensar no contrário. Em vez de ser ele a vir, ir eu. Porque, já tendo um trabalho, era tentar encontrar outro”.
O Carnaval de 2001 foi passado a traduzir o currículo e a enviá-lo para vários locais em Milão e, numa questão de dias, vários pedidos de entrevista começaram a chegar. Assim, a 16 de setembro de 2001 – apenas cinco dias depois do acontecimento que deixou o mundo em rebuliço devido ao ataque às Torres Gémeas, nos Estados Unidos da América – Ivone apanhou o avião para fazer a primeira entrevista em Milão.
Uma das entrevistas foi a certa. Num hospital procuravam uma pessoa para substituir uma profissional de saúde que iria entrar em licença de maternidade. Disseram-lhe que, se corressem bem os seis meses iniciais, no final lhe dariam um trabalho efetivo. Depois de relembrar esta fase inicial, Ivone conclui com “lançámo-nos”. A portuguesa e o marido disseram que sim e, em apenas duas semanas, Ivone demitiu-se do trabalho em Portugal, deixou a casa em Lisboa e regressou a Milão. Os seis meses de experiência terminaram e a proposta de trabalho efetivo chegou para ficar: prolonga-se há 20 anos.

Em 20 anos, apenas três portugueses
Mas antes de constituir a família numerosa, Ivone passou pelo período de adaptação ao país. Milão não era uma cidade totalmente desconhecida para a aventureira. “Conheci a cidade a primeira vez com Taizé. E foi também aí que conheci o meu marido”, relembra. A memória falha e, no meio da incerteza, tem como referência a passagem de ano de 1997 ou 1998”. Foi na passagem de ano de ’97 ou ’98 e fiquei numa família de acolhimento. E essa família foi a família do meu marido”, relembra entre risos. “A partir daí ficámos grandes amigos, mas nada mais, não foi nada que pensássemos ao longo do tempo. E depois, a nossa amizade em conjunto com muitas coisas em comum aproximou-nos”, como é o caso da oração, da igreja, dos escuteiros, da catequese e de vários movimentos católicos a que ambos estavam ligados.
E foi graças à rede pré-estabelecida de amigos e conhecidos que já tinha em Itália que Ivone soube que, mesmo partindo “à aventura como uma pessoa jovem” não estaria sozinha.
Mas apesar de já conhecer algumas pessoas, poucas eram portuguesas e Ivone não sabia a língua: “nunca estudei italiano e em Milão só conheci, até hoje, três pessoas portuguesas. Todas casadas com italianos! E nos primeiros três ou quatro meses, esse era o maior sofrimento: não poder falar ou exprimir-me porque não sabia dizer as palavras na língua do país onde vivia”.
Para quem a ouve, hoje Ivone já é fluente e é o português que às vezes sai mais arranhado. “O meu marido ensinou-me a maior parte das bases e, além disso, via televisão só italiano. E tive a sorte de ter bons colegas de trabalho. Primeiro porque, sendo um trabalho muito manual, tenho que falar com os doentes, apesar de serem as minhas mãos que mais trabalham. E os meus colegas ajudaram-me. Encontrei pessoas que foram e são excecionais; amigas já há 20 anos que me ajudaram a entrar mesmo no país”.
Nestes 20 anos em que Ivone fez as malas e partiu à aventura a família cresceu e, de dois, passaram a seis, com quatro meninas, a Maddalena, a Clara, a Elena e a Martina, a aumentar a felicidade do casal. “Olhando para Itália, principalmente no norte, há um mundo aberto à disposição porque há muitas possibilidades, principalmente para crianças! Temos o museu do Leonardo Da Vinci, por exemplo. Há muita possibilidade de conhecimento, muitas bibliotecas e museus tudo aberto. O tempo falta e é difícil a organização. Mas há a possibilidade de fazer tanto! Em qualquer parte de Itália há uma história enorme”, explica Ivone.
Além da oportunidade de ter acesso à cultura e ao conhecimento “em qualquer parte” também o sistema de educação e de saúde acabam por ser melhores, na opinião de Ivone. E um dos exemplos diz respeito aos medicamentos: “cá, os testes [à Covid] são todos gratuitos, assim como a grande parte dos medicamentos. O máximo que podemos ter que pagar são 50 cêntimos por um medicamento para uma criança. Aqui em Itália eles têm o hábito de se queixar, mas acho que não há motivo, quando comparado com Portugal”.

Padinhas, Ucal e a sopa da avó:
a tríade portuguesa
A última vez que Ivone veio ao país que a viu nascer foi em 2018, há três anos. O habitual era visitar Portugal uma vez por ano, na altura do Natal ou do Carnaval. O objetivo era fugir ao verão, altura em que os preços disparavam.
Mas o ano passado, em plena pandemia, era “impossível”, diz Ivone, explicando que “a mais nova não está ainda regularizada enquanto adoção e não tínhamos os documentos necessários, tal como este ano. Por isso decidi levar as miúdas sozinhas para Portugal”.
O objetivo da mãe é “dar-lhes um bocadinho de tempo na infância, para terem memória do tempo em Portugal quando são mais pequenas. Queria que as minhas filhas vivessem a minha terra enquanto fossem pequenas e que tivessem um bocadinho das minhas memórias”. Por isso mesmo, este foi o ano de “recuperar o tempo”, conta.
À pergunta “elas gostam de visitar Portugal?” a resposta é instantânea: “sim! “Gostam muito de comer as coisas portuguesas. Cá [Itália] não têm padinhas e Ucal. Não há manteiga com sal como a nossa e elas adoram as torradas com essa manteiga. Também gostam de caracóis. E adoram a sopa da avó! Eu faço e dizem sempre que fica parecida, mas nunca é o mesmo”, afirma Ivone entre risos.

Cantar e rezar em português
A vinda das filhas a Portugal também simboliza um mudar de ficha para a tia: “A Laura fala italiano com elas. E algumas coisas elas já percebem, mas não sei se conseguem fazer uma frase… A maior talvez consiga”.
Isto porque em casa a língua mãe é o italiano “Decidi não falar português porque já não o fazia há seis anos, desde que cheguei a Itália. Não queria falar com elas na língua que já não me representava. Não é por ser mais ou menos portuguesa. Sou a mesma, não mudei de nacionalidade. Mas pensar, sonhar, falar todos os dias e a todas as horas fazes na língua que te representa”.
Mas em todas as regras há uma exceção e esta passava pela oração e pelas canções infantis: “a única coisa que eu não sabia em italiano eram canções infantis. E não sei, até hoje, rezar em italiano. É algo muito íntimo e por isso é difícil”. Por esse motivo as filhas sabem as orações e canções em português. Mas, diz Ivone, “no primeiro confinamento fizemos algumas lições para que começassem a ter prática na língua, apesar de aqui não se ouvir”.
O futuro é incerto, mas, para já, enquanto “for ativa, tiver trabalho e as crianças forem crianças” Ivone tem a certeza de que não quer regressar a Portugal.
“A falta da família, que não se tem ao pé, custa sempre. As raízes, não estando perto, deixam sempre aquela dor e saudade. Tudo o que vivi em Reguengos é o que me falta mais. Chegar à rua e reconhecer as pessoas, falar… O tempo em Portugal parece mais fácil. As pessoas param, falam, perguntam, recordam-se de coisas, fala-se das coisas da vida. Aqui a vida corre muito depressa”, defende Ivone. No entanto, certa de que o país lusitano traz calma, reconhece que ao partir aprendeu “a viver o mundo de uma forma diferente” e isso enche-a de orgulho e felicidade.◄

  • Publicado no Jornal PALAVRA, edição de agosto 2021