jornalpalavra

jornalpalavra

Um dia de setembro

Poderia dizer que, à semelhança da manhã de abril, a noite de setembro revelou-se mágica e no quente húmido de um outono recente, sentia-se a alegria da vitória.
Sorrisos rasgados, abraços sentidos, mãos que se tocam, gestos largos cheios de ruído e a alegria contagiante de quem vence. Nos rostos dos mais emotivos, o brilho do olhar era acompanhado por lágrimas em catadupa, que ousadamente escapavam ao controlo social de não chorar em público.
A pouco e pouco as pessoas foram chegando e à medida que as primeiras horas da noite avançavam devagar, a rua enchia-se de gente, porque a sede se tornara demasiado pequena para todos. Os resultados ainda não eram definitivos, mas considerando os dados já conhecidos que nos chegavam por vários meios, a vitória era praticamente segura.
Porque o calor se intensificava e precisava de repor os níveis de nicotina, vim para a rua e sentei-me no parapeito da montra que ladeava a porta de entrada. Acendi um cigarro e num exercício forçado de abstração, tornei-me observadora do que me rodeava. Eramos muitos, mesmo muitos; jovens, adultos, idosos, famílias inteiras, algumas com crianças que, acompanhando os pais, procuravam partilhar da sua alegria numa ingenuidade ainda pouco consciente da dimensão do acontecimento que estavam a viver. Naquela noite de setembro, fazia-se história em Reguengos de Monsaraz.
Sendo o entusiasmo e nalguns casos a euforia, a manifestação preponderante de sentimentos, os comportamentos eram diversificados, de acordo com os antecedentes de envolvência em campanhas eleitorais anteriores. Os iniciados, ainda sem marcas prévias, vibravam efusivamente com cada um dos pequenos resultados que chegava, considerando a vitória quase certa; os seniores, cautelosos e com cicatrizes vivenciais, olhavam os resultados com alegria contida, num misto de esperança e incredulidade, de modo a impedir o aumento das cicatrizes já existentes. Eu estava no grupo destes últimos.
Então, subitamente e num chorrilho de momentos, tudo aconteceu – o candidato do partido no poder, telefonou para felicitar a candidata do meu partido pela vitória; a rádio local quis entrevistá-la; o jornal local quis entrevistá-la; o presidente do partido telefonou para a felicitar; a contagem dos votos estava terminada e a vitória era certa e expressiva.
Deixei cair as defesas, assumi a alegria dos iniciados e chorei abraçada aos meus filhos. Ainda na rua, olhei para o alto e partilhei o sentimento de vitória com aqueles que já partiram e deixaram testemunho de fidelidade e persistência política, tendo-se colocado continuamente ao dispor da causa pública e à sujeição do escrutínio popular. Fez-me falta o abraço da minha Alice e as palavras de encorajamento que seguramente me diria.
Confesso que naquele momento, por estar tão centrada no prazer da vitória, não pensei naqueles que perderam, nem no que estariam a sentir, embora hoje consiga imaginar. Na verdade, conheço tão bem e tenho tão enraizado o sabor da derrota, que estou, cuidadosa e lentamente, a aprender a saborear a vitória.
Se ganhar é bom, perder não é totalmente mau, porque nos ajuda a perceber onde é que falhámos e o que é que poderíamos ter feito melhor para não desiludir aqueles que nos elegeram.
Defendo e sempre defendi a alternância de poder, independentemente de quem o exerce. O poder, quando exercido demasiado tempo pela mesma força política ou pessoa, torna-se corrupto, prepotente, surdo e cego. Cria raízes poderosas que a pouco e pouco minam e destroem tudo o que é diferente, considerando que só a sua verdade é válida, esquecendo-se que na democracia é o povo que decide. O poder pode ser perigoso e exige que seja exercido com rigor, espírito de serviço e um respeito profundo por aqueles sobre quem vai ser exercido.
Naquele dia de setembro, o povo do concelho de Reguengos de Monsaraz, de forma totalmente democrática, decidiu a quem queria empoderar. Confiou numa equipa unida, liderada por uma mulher e confiou num projeto de 4 anos que tem como compromisso, fazer “Mais pelas Pessoas”.
Cientes da responsabilidade e gratos pela confiança depositada, acreditamos convictamente que a 18 de outubro, um novo ciclo se inicia.
Sabemos que o mundo não é cor-de-rosa, e que nem todos os dias serão de sol; sabemos que haverá dias de vento forte e dias de chuva intensa, mas também sabemos que estamos preparados para enfrentar as várias estações do ano. Da minha parte, adoro o inverno.◄

  • Publicado no Jornal PALAVRA, edição de outubro 2021