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O apagão

Não me refiro à falta de luz, que poderia bem ser um tema, pois a luz está tão cara em Portugal que o melhor seria ficarmos todos às escuras. Refiro-me ao apagão de WhatsApp, Facebook e Instagram. Nomes que já merecem ser escritos em maiúscula, porquê perguntam, porque estima-se que a economia mundial tenha perdido mais de 950 milhões de dólares em seis horas devido ao apagão, espasmem-se agora.
Comecemos do início, os meios de comunicação, a digitalização do mundo, ou seja, não o mundo numa fotografia, mas o mundo sendo uma fotografia, essa necessidade e todo o simbolismo criado pela cultura de massas face ao objeto (câmara, Iphone, etc), tinha em vista a democratização dos meios, a interdisciplinaridade através da digitalização, uma vez que todos podemos ser autores e atores e uma vez que todas as disciplinas se podem tornar digitais. Por outro lado, e desde uma perspetiva económica, parece-me a mim, que democracia sem regularização não existe. As 6 horas em que o Facebook, WhatsApp e Instagram foram abaixo, são a prova que o mundo está literalmente nas mãos da pessoa que criou tais média, Zuckerberg. Isto parece assustador e é assustador, o facto de a humanidade estar nas mãos de uma única pessoa. Quando os meios de comunicação reanimaram novamente, o tema e os memes que rodavam no Instagram eram sobre o apagão que tinha acabado de acontecer, aliás, memes bastante satíricos, que por um lado queriam também passar a mensagem de que um homem tem a humanidade na mão e tudo depende de algoritmos que controla ou não.
Neste dia tive o jantar de aniversário de uma amiga e percebi-me que todas na mesa estavam com o telemóvel na mão, de 15 em 15 minutos, esperando que as redes voltassem ao normal; outras decidiram usar o linkedin. Todas nós agarrávamos o telemóvel sem saber bem porquê, a força do hábito. Ao ir embora ouviam-se comentários como: ‘ir para casa fazer o quê sem as redes sociais?’, outras comentavam, ‘a minha mãe ligou-me, estranhamente, porque estava a sentir falta das redes sociais’, outras afirmavam que se sentiam ansiosas.
Não existe separação entre o mundo físico e virtual, o mundo virtual é tão real como o físico, é uma questão de escolherem a matriz da corrente epistémica que desejam seguir, se a fenomenológica ou a positivista.
A verdade é que a ideia de ter um imperador, de nome Zuckerberg, a controlar metade da humanidade e do qual a democracia depende também não me agrada muito. ◄

  • Publicado no Jornal PALAVRA, edição de outubro 2021