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A mercantilização da cultura

Faz agora um ano que o assunto deste espaço foi a “Festa da Senhora das Candeias” de Mourão, e as suas características populares, que felizmente ainda se mantêm, em particular o já clássico festival taurino que marca a abertura da época nesta parte da Europa em que se pratica esta atividade tradicional que desejamos continuada e valorizada. Era também por esta altura que havia todos os anos a feira de Olivença, a primeira grande feira taurina da região, onde toda a gente amante da festa ia, nem que fosse apenas para ver o movimento, se acaso os carteis não interessavam, o que era raro, ou se não se arranjavam bilhetes, o que era mais comum a quem não estivesse atento. Infelizmente, este ano, e pelas razões que todos conhecemos, estas manifestações populares e tradicionais não se realizam.

Frederico Garcia Lorca, dizia numa sua celebre frase: “Creo que los toros es la fiesta más culta que hay em el mundo”. Também acredito que sim, e acrescentaria que a tauromaquia é das atividades mais sérias da nossa cultura local e regional porque mantem a sua ética, a sua estética, a sua estrutura e a sua forma de ser tal e qual como sempre foi.

As restantes atividades mais consumidas como entretenimento e cultura como futebol, automobilismo, cinema, festivais de música, gastronomia, televisão, turismo, entre tantas outras, estão completamente mercantilizadas, adulteradas e transformadas em espetáculo puro e duro, aos quais foram retirados toda a verdade e pureza originais. Tudo foi tomado por organizações centrais exclusivas que introduziram regras de mercado e de utilização mediática que as amarraram a um processo comercial e assim as reduziram a meros produtos de consumo.
Até o património cultural, natural, arquitetónico e imaterial, está já a ser usado pelos obtusos do turismo, exclusivamente como fazenda. As classificações da Unesco, que antes eram um sinal de reconhecimento pela sua importância e que constituíam um importante contributo para a sua salvaguarda, são hoje pouco mais do que meras fitas no chapéu que decoram o bem classificado e servem exclusivamente para chamariz das catervas de invasores, gente inculta que vem ao chamamento, ao isco, tal como o rato vai à ratoeira pelo cheiro sem saber nem pensar ao que vai.


As viagens, os hotéis, o merchandising, estão completamente manipulados, formatados, iguais em todo o mundo. Para os atuais turistas, ir a Braga ou a Istambul, é exatamente igual. Chegam a casa tão ignorantes como partiram. Desde que façam a selfie ao pé do que for mais emblemático e comprem o imã para fixar no frigorifico, já cumpriram a missão. Ainda que não tenham percebido nada, nem aprendido nada sobre a peça arquitetónica, escultórica ou icónica com que se fizeram fotografar. É nisso que se está a transformar o património e os bens culturais. Em cenários virtuais. Os toiros ainda não. Toda a sua estrutura de seriedade, desde a forma de criação dos animais nos campos, como as práticas diárias daqueles que os cuidam e mantêm, continua inalterável. Os moirais continuam a montar a cavalo e a vestir os seus trajes de campo. As costureiras e os artesãos continuam a fabricar as roupas e toda a parafernália de atavios necessários às artes de montar, de tourear, de manobrar no campo. Os toureiros continuam a fazer os seus percursos desde as escolas de toureio, passando pelas fases de praticante, novilheiros, alternativa e confirmação, sujeitando-se a uma formação longa e árdua, que os pode fazer artistas de renome. O público continua a ser, maioritariamente, conhecedor e respeitador do que está a ver, e intervém, de forma prevista, aplaudindo, ficando calado, ou mesmo, em casos extremos, assobiando para transmitir o seu desagrado pela qualidade do toiro ou qualquer outra incorreção dos intervenientes.
As outras atividades referidas estão já prisioneiras do controle financeiro e propagandístico total de um ente abstrato que se apropriou do negócio, fazendo o que quer, adaptando regras e muitas vezes adulterando os resultados, sujeitando-o às traficâncias costumeiras, como é vulgar, em especial no futebol. Estes “produtos” poucas semelhanças já têm com o original, retirando a alegria genuína que as pessoas tinham ao irem assistir a esses espetáculos.
A tauromaquia, pelo menos por enquanto, mantem o seu caracter original de verdade e de autenticidade. Até a sua exploração televisiva, que no mundo taurino está entregue a um canal temático, o “Toros”, de divulgação mundial, é um canal de uma seriedade e de uma correção extraordinárias. Basta dizer que é um canal sem publicidade. Os únicos momentos publicitários do canal são o anúncio dos seus próprios programas, e toda a programação se dedica em exclusivo ao conteúdo central. Para além de transmitir as melhores corridas das melhores feiras taurinas de todo o mundo, tem outros programas complementares sobre ganadarias e ganadeiros, história da tauromaquia e dos toureiros e ainda sobre grandes momentos e curiosidades do mundo taurino: como se treinam os jovens toureiros, como são as indumentárias e toda a imensa quantidade de obreiros que trabalham para a tauromaquia, como se fazem as selas e os arreios dos cavalos, as bandarilhas, as caixas e malas onde se guardam todos os apetrechos, sobre o transporte dos toiros e dos cavalos, enfim, sobre todo o mundo taurino, sem aparente aproveitamento paralelo.
Sim, os toiros são o espetáculo mais sério e mais culto que existe, sem mercantilismos, sem modernices bacocas só porque sim. Mantem a sua condição conservadora e as suas regras fundamentais. No mundo taurino, quando é preciso alterar, alterara-se inteligentemente, sempre para melhorar, e isso tem acontecido com as indumentárias, com as regras das lides, a forma de criar os toiros e os essenciais apuramentos das raças para as adaptar à evolução admissível e necessária dos novos tempos, mas sempre com um respeito e uma delicadeza que passa despercebida.
Conta-se que Camilo José Cela, disse um dia, “Queria ser toureiro, mas só cheguei a prémio Nobel”. ◄

  • Publicado no Jornal PALAVRA, edição de março 2021