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A princesa de olhos azuis

Levantei-me mais cedo do que o habitual para não faltar ao compromisso assumido. No dia anterior, quando a levámos a casa depois do jantar de sábado, que obrigatoriamente, por sua vontade, tinha que ocorrer num dos restaurantes da cidade ou dos concelhos limítrofes, combinámos que iria ajudá-la na manhã seguinte. “O último sítio onde quero deixar de ir, é à missa”- disse-me, com a sua voz calma mas perfeitamente decidida. Católica convicta, mulher de fé inabalável, fazia de Deus o tónico da sua vida para todos os momentos. Nos de tristeza e dor, como alivio e consolação, nos de alegria, como louvor e agradecimento.
Nessa noite de sábado senti-a cansada. Comeu pouco e muito vagarosamente, mas participou animadamente nos vários diálogos que foram surgindo ao longo da refeição, manifestando um prazer evidente por estarmos todos juntos.
Na manhã de domingo, quando me preparava para sair de casa para cumprir o combinado, já de casaco vestido, o telemóvel tocou. Era ela! Voz arrastada, cansada, quase em surdina, pede-me para não a ir buscar porque não conseguia levantar-se. “Não consigo ir à missa”, disse-me!
Contrariando a sua indicação, uma das poucas vezes que o fiz, fui ter com ela. Estava deitada, quieta e aparentemente tranquila. A sua pele clara tinha empalidecido e uma certa tristeza caracterizava o seu semblante. Olhou-me fixamente e através do azul dos seus olhos, límpidos como safiras, consegui ver-lhe a alma. Beijei-a com ternura, retribuiu-me o beijo, e, em conjunto, decidimos que era preciso pedir ajuda recorrendo aos serviços de saúde. Embora a decisão fosse bilateral, impôs-me uma condição: – “primeiro vais à missa, rezas por mim e a seguir vamos”. Recorri desta cláusula utilizando argumentos temporais, tão importantes quando a saúde está frágil, mas rapidamente percebi que o assunto não era negociável. Apesar de estar debilitada, a sua vontade permanecia firme e o que inicialmente me parecia um desejo, vestiu-se de ordem. Acatei o que me dizia, ajeitei a roupa da sua cama, tornei a beijá-la e saí, com a promessa de que voltaria rápido.
Vivi a eucaristia numa atitude permanente de súplica, invocando a fortaleza que só o Espirito Santo é capaz de dar, e rezei por ela como me tinha pedido.
O que aconteceu a seguir nem sei bem. Telefonemas para o centro de saúde, para o 112, preparar cartões de identificação e de saúde, listagem da medicação habitual, resultados de exames recentes e de toda a informação com pertinência clínica. Quis levar o pijama vestido, o robe, a mantinha que usava em casa e escolheu as pantufas cor-de-rosa.
Tal como me tinha dito anteriormente, não conseguiu levantar-se da cama e saiu de casa deitada numa maca transportada pelos bombeiros. Já na rua, despediu-se de nós e de alguns vizinhos que entretanto tinham chegado. Olhou para aquela que foi a sua casa durante aproximadamente 50 anos e despediu-se. Senti um frio interior que me incomodou e na expressão do seu rosto li uma mensagem de desapego, aliada a um adeus derradeiro, caraterístico de quem sente que já não vai voltar aquele lugar.
Acompanhei-a até ao Hospital do Espírito Santo. A viagem foi maioritariamente feita em silêncio, sem uma queixa, um lamento, uma dor ou uma lágrima; apenas curtos diálogos acerca da posição na maca ou o tempo que faltava para a viagem terminar.
Entrei com ela no serviço de urgência, dei informações sobre o seu estado de saúde na triagem e permaneci junto dela no balcão, o curto tempo que me foi permitido. Deixei-a ao princípio da noite, com a garantia de que não tinha dores, mas somente um grande cansaço que não conseguia explicar. Antes de eu sair trocámos abraços, beijos e sorrisos, ancorados na promessa de que nos veríamos no dia seguinte.
A promessa cumpriu-se, não só no dia seguinte, mas também nos restantes quatro que se seguiram. Os resultados dos exames complementares de diagnóstico realizados, era devastador e inequívoco.
O seu período de internamento foi curto, mas os momentos que partilhámos durante o mesmo foram intensos, transparentes e verdadeiros. Falámos sobre o diagnóstico, o possível tratamento, a família, o amor que nos unia, a vida e a morte. Ajudei-a a comer, rezámos em conjunto e agradeci-lhe por tudo aquilo que sou. Recebeu a Santa Unção pela mão do seu pároco e despediu-se de cada um dos netos individualmente como foi a sua vontade.
Consciente e lúcida até ao último momento, preparou e viveu a sua morte tal como viveu a sua vida – tranquilamente, sem pressas, aceitando com total abnegação cada instante, deixando-se cair no conforto do colo de Deus.
Às 15h do dia 13 de novembro, de mão dada comigo, num momento de profunda intimidade, a minha princesa de olhos azuis partiu em paz.
Leitora fiel do que eu escrevia, sempre antes de ser publicado, só agora descobri que guardava todas as páginas do Jornal Palavra onde estavam escritos meus. Porque nunca lhe agradeci esse trabalho de registo perpétuo, este escrito é em sua memória. Até sempre Alice! ◄