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Agosto

A pequena aldeia minguava em Agosto. As ruas pareciam ainda mais pequenas, as casas mais pálidas. Podia-se esbarrar no silêncio a cada passo.
O calor ombreava com o vazio. Era como se uma avalanche de terra quente se imiscuísse nos pulmões e tornasse a respiração impossível.
A rua principal desaguava no largo da igreja. De tempos a tempos um carro abalava a quietude do dia. A Ti Jerónima ficava no hall de entrada da casa a tricotar. A porta entreaberta, só o suficiente para garantir que a rua continuava muda. A velha vivia sozinha há mais tempo do que se conseguia lembrar, o marido morrera jovem pouco tempo depois do casamento. Sem filhos, sem homem, sem outro futuro que não fosse esta vida interminável. No largo o café central era o único ponto de encontro. Numa mesa à sombra estavam três homens. Idade avançada, olhos semi cerrados encandeados pelo namoro das paredes com o sol em brasa. Jogavam cartas. Poucas palavras, o lenço do algodão à mão de semear para ir amparando o suor da fronte. Jogavam cartas como quem joga conversa fora, sem pressas e sem muito pensar.
A Luisinha aproveitava a sesta dos meninos para descansar na cadeira de baloiço, herança da avó Mariana. As quatro crianças tinham vindo como as cerejas, a mais nova tinha quatro meses, os gémeos ano e meio e a mais velha ainda não tinha três, uma escadinha de trabalhos forçados e sonhos adiados. A hora da sesta era um bálsamo para o corpo cansado. A rapariga deixava-se cair para a cadeira e permitia-se relaxar, pegava no leque colorido que a tia lhe tinha trazido da excursão a Sevilha e perdia-se na dança do par apaixonado desenhado a tinta garrida, ela de vestido encarnado aos folhos, decote fundo e cabelos negros a cair pelos ombros, ele de fato preto justo e sedutor. Ela e o seu Rafael viravam as noites a dançar no baile de entrudo, e nas festas de setembro. Tinha tantas saudades de dançar nos braços do Rafael. Depois o leque caia e a Luisinha adormecia com o coração cheio de amor e aquele nó na garganta que não desfazia nem com toda a água do mundo.
Quando o dia começava a ceder, abriam-se portas e janelas para deixar entrar o fresco, a noite trazia ao de cima um burburinho de vozes e cadeiras a arrastar. A rua principal ficava enfim composta. A temperatura era ainda devastadora, mas a lua dava tréguas à cal branca das paredes. A Ti Jerónima fechava agora a porta da rua e retirava-se para o quartinho nas traseiras do casarão. A solidão dos dias quentes compreendia-a, as ruas desertas eram suas irmãs de berço, a noite a as vozes acordavam o medo de viver mais um dia.
A Luisinha duas portas abaixo cantava uma cantiga de embalar, palavras antigas que a mãe lhe cantara a ela também. O corpo pesado, os pés inchados, os braços dormentes e a voz doce só de quem tem um coração audaz. Logo ao início da rua, na casa de pé azul-turquesa, vivia o Ernesto. Saía cedo para o campo sempre a dar graças ao criador porque trabalhava de sol a sol sem ninguém por perto. Levava o farnel, comia por lá, na sombra de uma árvore os pés mergulhados no ribeiro, a cabeça longe. Regressava antes do pôr-do-sol, passava na mercearia da D. Rita e fechava-se em casa. Se a vizinhança se calasse, podia ouvir-se ao longe o som do rádio que era a única companhia do Ernesto. A televisão estava desligada há anos, guardada na arrecadação do quintal. A televisão não fazia mais do que contar estórias de amor, de mulheres fatais e homens ingénuos. E era sempre a cara dele naqueles homens humilhados. No rádio passava agora um cantor da moda, a voz estridente e a alegria da música deixavam-no desconfortável. A Laura gostava tanto de dançar – as músicas alegres traziam sempre de volta a Laura.
Casamento marcado para 10 de Agosto, sábado ao meio dia, que a festa de arromba era para durar até às tantas. Vieram os tios do Montijo e até a prima Francine veio de Zurique de propósito. Os amigos adiaram as férias e mesmo o padre que ia sempre para as termas nessa
semana não se incomodou de adiar dois dias. Afinal de contas era o Ernesto e a Laura, todos por ali os viram crescer de mãos dadas a correr destemidos, muitos presenciaram os primeiros beijos pelas esquinas. O dia já amanheceu em festa, quente e limpo, o céu azul como num filme. Quatro rapazes da filarmónica da vila tinham vindo logo cedo e tocavam pelas ruas a troco de um petisco aqui e ali pela vizinhança. O sino da torre tocou à hora certa e Ernesto estava de pé no altar. Fato de terylene azul-escuro, camisa branca e uma gravata cinzenta às pintinhas, garboso, não cabia nele de felicidade. Os convidados enchiam os bancos da pequena igreja da aldeia e um cheiro forte de naftalina e flores saturava o ar.
A Laura chegou pelo braço do pai, vinha toda de branco, os cabelos ruivos soltos pelos ombros, o rosto afogueado pelo calor e um ramo de rosas amarelas nas mãos. A Laura era uma visão e o Ernesto pensou que não havia homem no mundo com mais sorte.
A Laura chegou pelo braço do pai, viu o Ernesto no altar, olhou para ele, sorriu um sorriso triste e fugiu a correr porta fora. O pai chamou-a, o povo gritou por ela, mas a rapariga desapareceu no pó da estrada. Aproveitou a carreira que estava de partida no largo, deixou os sapatos de salto pelo caminho e foi sem dizer adeus. O Ernesto estava especado no altar. Era uma pedra. Quando enfim todos os olhos se viraram para ele acordou daquele transe e escapuliu-se pela porta da sacristia.
Um mês depois recebeu um postal de Lisboa. Pedia desculpa, estava bem e não queria que ninguém a fosse procurar, porque ela finalmente tinha-se encontrado.
Ernesto nunca soube o que ela queria dizer com aquilo. Só sabia que para ela se encontrar ele tinha-se perdido.
Quando o sono ganhava a luta, desligava o rádio e deitava-se na cama de casal encolhido como uma criança.
Como a aldeia, também o Ernesto minguava em Agosto. ◄

  • Publicado No Jornal PALAVRA, edição de agosto 2021