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Agricultura regenerativa sustentável

Um dos problemas de que se fala diariamente é o da seca, da falta de água e das dificuldades que implicam para a agricultura. Não há dia em que não se façam noticias catastrofistas sobre este “grave problema”. Mas será que este problema é mesmo real? Há assim tanta falta de água? O clima mediterrânico é caracterizado por oscilações climáticas que provocam, naturalmente, períodos sem chuva. Sempre foi assim. Porque é que se insiste tanto num problema que se calhar não é problema nenhum? Até porque o Alentejo tem, desde há uma vintena de anos, o maior reservatório de água da Europa. Será que agora, com tanta água armazenada, ainda há falta de água? Ou será que ela está a ser mal utilizada?
Alqueva foi um projeto que demorou décadas a ser concluído, e que sempre teve imensos opositores que entendiam que não era esta a melhor maneira de armazenar água. Defendiam em alternativa, estes críticos, um conjunto de pequenas barragens, que seriam melhor geridas, com menores custos, causando menos problemas. Basta lembrar os custos que houve com este projeto, como a transladação de uma aldeia inteira, de cemitérios, de um cromeleque – o do Xerez – e a quantidade imensa de monumentos megalíticos que tiveram de ser estudados antes que ficassem submersos. Os custos destas obras e os outros indiretos, em trabalhos compensatórios, mais os custos com as indeminizações, foram talvez os custos mais elevados de um projeto feitos em Portugal. Mas, na origem deste projeto, alguém terá pensado que toda esta água ia ser utilizada em olival e amendoal? Os efeitos positivos nas exportações destas culturas não terão outros custos ambientais, sociais, patrimoniais, de ordenamento do território com impactos negativos raramente tidos em conta?
Já é sabido, porque vai sendo noticiado, que não houve o cuidado necessário na escolha de algumas culturas, que não são adequadas nem às características dos solos, nem à tipologia dos terrenos. Por outro lado, a falta de respeito pelas linhas de água, com destruição da vegetação ribeirinha, e os impactos graves na erosão provocada pelo tipo de agricultura praticada, com um tratamento inapropriado da topografia e orientação das plantações e taludes, tiveram impactos negativos na biodiversidade animal e vegetal. Desapareceram imensas espécies tradicionais e autóctones. Todas estas práticas merecem avaliação muito negativa para esta nova agricultura. Para não falar na qualidade estética da paisagem que sofreu alterações brutais, muito significativas, na riqueza paisagística existente. Um dos casos mais graves, que já referimos aqui noutra ocasião, foi a desaparecimento dos chamados “charcos temporários mediterrânicos”, que foram ignorados pelas maquinarias que arrasaram tudo à sua passagem para facilitar as manobras e a instalação de um conjunto enorme de equipamentos e de tubagens subterrâneas para transporte da água. Outro dos problemas que tem sido recorrente e de muito difícil acompanhamento, tal a quantidade de situações, é o do património arqueológico, que apesar de estar especialmente identificado e registado é destruído pelas movimentações de terras. O uso de pesticidas junto às povoações, é também um problema grave, de que muitos habitantes se queixam, e que põem em risco a saúde publica.
Há ainda um outro problema, gravíssimo, que não está a ser considerado. Seria de esperar que tamanho desenvolvimento teria um efeito positivo na inversão do problema demográfico destas zonas. Não teve. Os dados recentes indicam que aconteceu justamente o contrário. Os trabalhos agrícolas não criam empregos, tão necessários, antes pelo contrário, exploram o trabalho emigrante, com todos os problemas sociais inerentes, nomeadamente uma nova escravatura, com o aparecimento de redes de tráfico humano. E parece que o pior estará para vir, com a implementação de novos perímetros de rega, muito apetecíveis para quem pretende investimento fácil e água barata, pois tudo é amplamente subsidiado. Resumindo, se em termos económicos o resultado é bom nas estatísticas das exportações, por outro lado o abandono de outro tipo de plantações como frutas tradicionais, vegetais e cereais, obriga a que o pais importe a maioria destes produtos, desequilibrando o resultado final. Como a maioria das empresas são estrangeiras, e apesar dos lucros contarem para o PIB do pais em que é produzido, esses valores saem alegremente para o exterior e não ficam em território nacional. Seria este o resultado esperado com tamanho investimento? Antes pelo contrário, estamos a assistir a um desastre económico, social e ambiental, estamos a promover, com dinheiros públicos, uma agricultura insustentável.
Há, no entanto, quem ainda saiba fazer um tipo de agricultura que vive bem com a escassez de água e com as ditas secas, respeitando e adaptando-se aos escassos recursos existentes. São raros os exemplos, mas existem. Chama-se a esta agricultura, “regenerativa”. Porquê? Porque respeita os equilíbrios dos ecossistemas, e convive bem com os problemas, já antigos, da agricultura mediterrânea, com chuvas pouco frequentes, mas intensas. Para que o solo consiga reter a água é necessário usar práticas agrícolas compatíveis, aumentando a matéria orgânica na terra, por exemplo com a pastorícia tradicional. Assim se criam condições para uma maior absorção da água no solo. Os animais produzem excrementos naturais, que depois de fermentarem ajudam à regeneração de todo o ecossistema. O outro segredo é simples, é praticar culturas adaptadas ao tipo de solos, sobretudo das espécies naturais como a figueira, a alfarrobeira e outras árvores pouco exigentes em água, em alternativa a espécies que são justamente o contrário e que necessitam de quantidades anormais de água. Por isso é que se diz que há seca, não porque não chova o suficiente, mas porque se gasta água em excesso. Na agricultura regenerativa, os animais comem as ervas e deixam o estrume que o solo precisa para fertilizar naturalmente as sementes. A matéria orgânica absorve a humidade necessária à cadeia reprodutiva. Tudo igual ao que acontecia há milhares de anos quando o homem inventou a agricultura. É isto a agricultura regenerativa que nos interessa, que desenvolve e cria riqueza sustentável, e não aquela que exige água em demasia e acha que existe seca, quando o que existe é apenas um excesso de uso da água. Se deixarmos a natureza funcionar, teremos aquilo que se chama práticas agrícolas sustentadas, que deixam a riqueza onde é produzida e são amigas da natureza. ◄

 

  • Publicado no Jornal PALAVRA, edição de junho 2023

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