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Amar no caminho da vocação

Poderá parecer estranho que no meu percurso de vocação tenha decidido amar-me desde sempre. Seria de esperar que na minha construção vocacional estivesse avidamente disponível para amar o outro, acima da minha própria condição de amar, para além do meu “eu”, para lá da ideia que faço de mim enquanto filho de Deus.
Mas é mesmo por ser filho de Deus, irmão de Jesus, que na construção do que sou, do que dou, do que construo e do que sonho, resolvi muito cedo que teria que amar-me na plenitude de mim. Amar-me todos os dias, em todas as circunstâncias e em todas as situações. Amar-me acima de ter medo, amar-me acima de ter dúvida, amar-me acima de não saber o que fazer hoje ou amanhã. Sou um recurso de Deus na vida de muitos, de todos os que me amam, que partilham comigo a vida, que trabalham comigo, que se divertem comigo, que choram e riem num encontro de amor pelos momentos que fazem diferença. E por ser isso, tenho que me aceitar e tenho que me gostar, tenho que querer para mim essa verdade de me gostar, de estar confortável com a minha companhia, com a minha palavra, com o meu gesto para comigo.
Como não me amar enquanto filho do Pai que está no Céu se a minha missão é amar todos os outros filhos de meu Pai? Como saber o que se sente por amor, se não amar a minha vida, a minha missão, o propósito da vocação da minha vida? Como poderia eu aspirar amar o outro se não conservar em mim próprio a beleza de gostar de mim tal como sou? Como posso falar de Jesus aos outros se não entender o que é mergulhar no meu interior, conhecer-me e amar-me por isso? Amar é vocação. Encontrar a vocação é amar por essa escolha constante que se afirma na vida, no encontro, na entrega. A vocação faz de mim um ser em constante verificação da verdade que assumi para mim, mesmo e sobretudo, quando surge dúvida. Amar é vocação, gostar de mim nesse caminho é estar pronto para gostar da minha escolha e gostar dos que são consequência efetiva dessa mesma escolha.


Amo-me na mesma condição em que me respeito, que me honro, que me renovo e que cativo os que vivem à minha volta. Amo-me e assim amo a minha vocação, o meu encontro permanente com Deus, a minha missão de evangelizar com a vida, seja qual for a minha condição. Não se trata de perder o foco ou de afunilar a resposta diária que dou às minhas perguntas, aos desafios que me são lançados, aos problemas que tenho que resolver ou capacitar o outro para a sua resolução. Sou um recurso de Deus na minha vida também, acredito profundamente no que posso fazer por mim, sei que posso contar comigo e isso torna-me mais forte, mais disponível, mais ativo, mais alerta, mais missão, mais vocação.
Não posso esquecer-me no caminho que faço com os outros, nem no que conquisto com os outros. A minha vocação é construção e é validação muito séria das opções que vou tomando. Gostar do que se faz, de como se faz, de onde se faz, é aceitar que a vocação existe para te confirmar a existência, sem dúvida de que as dúvidas existem também para te conheceres melhor, para te encontrares mais, para fazeres outras coisas, ou as mesmas coisas de outras formas. A vocação é a renovação do que tu és, não a estagnação do estado em que ficas preso ao que não conseguiste fazer. Vocação não é perda de tempo a esperar sinais, é avanço no espaço que transformas, criando assim outros tempos e nesses tempos tu gostas de ti para poderes gostar dos outros.
Tenho que gostar muito de mim, sem nunca perder de vista que esse amor é motivo de força para amar sem medida e chegar a todos os meus irmãos, em nome do meu Pai que está no Céu. A minha vocação é amar, como poderei amar se não me aceitar, amando…◄

 

  • Publicado no Jornal PALAVRA, edição de março 2021