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As 14 obras de misericórdia

Em Monsaraz, cuida-se pouco da forma como se divulga e utiliza o seu património monumental, que é publico e de todos. Qualquer pessoa ou entidade, sem que para isso tenha competência, pode resolver organizar eventos, ainda que inadequados ao estatuto e à qualidade arquitetónica e patrimonial, e ainda ao facto de estar classificada como Monumento Nacional, estatuto que exige dignidade e respeito. Devia haver alguma regra que impedisse o uso e aproveitamento deste tipo de espaços, com eventos de qualidade duvidosa.
Em causa está um acontecimento inédito na vila: a realização de uma chamada “feira medieval”. Este tipo de eventos são uma fraude histórica e estética. Mas são popularuchos, e atraem uma clientela habituada e já fidelizada a este tipo de ocorrências. São grupos já habituais que desembocam nos espaços suburbanos onde costumam ser realizadas, como Bobadela, Cacém, Cruz de Pau, Frielas, Corroios, Odivelas, Alhos Vedros e outros locais sem qualquer notoriedade histórica onde até se enquadram, dado que são lugarejos sem relevância patrimonial. Servem para animação pontual e dinamização do comercio e da restauração ou de diversão de uns quantos folgazões que gostam de se mascarar fora da época do Carnaval. Normalmente realizam-se em parques de estacionamento, nas beiras das estradas ou nos terreiros das feiras comuns, e não entram em conflito com espaços públicos com outras funcionalidades. São normalmente organizadas pelos próprios interessados, as empresas de “animação” que fornecem as fatiotas, sempre iguais, e os chamados “desfiles”, também sempre os mesmos, sejam as feiras medievais, quinhentistas, setecentistas, templárias ou de “época antiga”. Tudo cabe no mesmo saco e os clientes não percebem a diferença. Não há qualquer interesse ou preocupação nas questões históricas ou de fidelidade temática. São realizadas por todo o pais às dezenas. Há até calendários organizados e páginas de Facebook a convocar os fiéis. Algumas ainda têm algum comercio de marroquinaria, mas sempre completamente desligadas de qualquer fundamentação histórica. As ditas “recriações” não passam de arlequinadas e arremedos sem qualquer autenticidade histórica ou outra. Os lucros são sobretudo para as empresas que alugam os fatos e fornecem os figurantes. Sempre levam lá umas pessoas, mas são de entrada livre, como é obvio, porque a intenção é a enchente.
Ter o atrevimento de fazer uma falsidade assim, dentro das muralhas de um castelo verdadeiro, que faz parte da história e do acervo cultural nacional, um espaço urbano e público qualificado, é que não lembra ao diabo, por se tratar de um evento inadequado ao espaço, sem nível, vulgar e pimbalhão. Claro que cada um é livre de gostar e de participar nos reality show que entender. Mas que o seja em locais adequados a bufonarias como esta. O problema ético que se coloca é que, tal como ninguém pode ser impedido de participar no tipo de eventos que entender, também os outros, que não estão interessados neste tipo de folias, não podem ser obrigados a ter de conviver com vulgaridades sem imaginação, pobres em histórica e estética, que afetam negativamente a qualidade urbana dos sítios. Dar este palco a uma encenação medíocre, é uma atitude de desconhecimento, que menoriza e escarnece dos valores culturais e de urbanidade. Para piorar a coisa, os intervenientes pensam que estão a fazer algo de sério, de cultivado, sem sequer se aperceberem do ridículo que promovem, e da poluição visual que provocam. Estes espaços públicos, históricos e classificados, não podem estar disponíveis para usos desrespeitosos para com o passado. Espaços públicos qualificados deviam ser reservadas exclusivamente para eventos genuínos e com um mínimo de qualidade.
Qualquer comparação com outros eventos, como por exemplo o festival islâmico de Mértola, só é possível e imaginável a quem desconhece a complexidade de um acontecimento que tem a investigação como base, que faz dele um grande evento cultural. Tem “artesanato, doçaria e produtos regionais, tecidos alentejanos, marroquinos, tunisinos, egípcios e espanhóis, concertos, exposições, oficinas, uma zona de oração”, e “festeja a herança árabe e o encontro de culturas” num souk real que se espalha por toda a Vila. A organização, “tem como base o trabalho arqueológico realizado sobre o património de Mértola”. Por exemplo, o cartaz do festival, com grafismo de elevada qualidade, é feito com base numa tigela de cerâmica do século XII, que pode ser vista no Núcleo de Arte Islâmica do Museu de Mértola. Mas, “desengane-se quem vai à espera de entrar numa máquina do tempo ao chegar à vila-museu”. O Festival Islâmico posiciona-se como distinto de outros do género e “distancia-se do conceito de feira medieval”. A ideia é “experienciar o presente de um mercado árabe real, com comerciantes reais, sem encenações ou recriações históricas”. Mas isso dá muito trabalho, e está tudo dito.
Mais estranho ainda é que o evento de Monsaraz seja promovido pela Santa Casa da Misericórdia. As irmandades das misericórdias são organizações que por todo o país trabalham, desde há mais de 5 séculos, no âmbito da sua histórica existência, a assistência social e o apoio à comunidade, seguindo os princípios das 14 obras de Misericórdia, 7 corporais e 7 espirituais. Nenhuma delas enquadra a realização de festas ou de atividades comerciais. Contrariam mesmo três delas – dar bons concelhos, ensinar os ignorantes e corrigir os que erram. É por estas e por outras que não se podem comparar as coisas sérias com as brincadeiras de carnaval. A educação, a história e a cultura devem merecer o respeito das instituições. Os espaços públicos e históricos também exigem o mesmo respeito. ◄

 

  • Publicado no Jornal PALAVRA, edição de maio 2023

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