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As dificuldades de adaptação à vida académica

“Entrei na primeira fase na minha primeira opção que foi Medicina na FML. Não me estou a adaptar minimamente à universidade. Posso dizer que esta semana já pensei em mudar de curso umas 1000 vezes, a desmotivação está a 500% e não sei o que fazer.” (S., 18 anos, estudante)
A entrada no Ensino Superior é um período de mudanças na vida pessoal e académica dos estudantes, que traz um acréscimo de responsabilidade. Fruto dessa mudança, a ida para a universidade pode ser também um período de ansiedade, angústia e nervosismo, quer para a família quer para os jovens, sobretudo quando obriga a mudar de cidade e, consequentemente, sair da casa dos pais. Para alguns, esta mudança de rotina pode significar a conquista da independência e autonomia há muito desejada, mas para outros representa perda de referências. É um mundo ambicionado durante muito tempo, mas que pode revelar-se muito distante da zona de conforto e afetar o bem-estar psicológico de muitos alunos.
Efetivamente, alguns estudantes acabam por enfrentar dificuldades de adaptação e viver uma série de emoções difíceis de elaborar, já que tudo são novas exigências: novo ano letivo, novos projetos, novos objetivos, adaptação a outros espaços, outras pessoas e outras dinâmicas, totalmente diferentes do secundário. É uma fase desafiante, que exige determinação e maturidade.
Esta fase representa também alterações ao nível do desenvolvimento psicossocial, já que poderá ver-se como o início da idade adulta.
Por outro lado, todas as dinâmicas até então experienciadas a nível da “escola” mudam também face a novos modelos de ensino-aprendizagem, exigência diferente do secundário com muito mais complexidade de matérias, e um ritmo e necessidades de hábitos de estudo muito distintos. Mesmo o sucesso que o estudante pode ter vivenciado no secundário por vezes não é continuado na vida académica universitária, o que pode trazer frustração. Começa agora também uma preocupação real com o sucesso/insucesso na universidade diretamente ligado ao futuro de uma vida profissional.
Também agora se poem à prova as competências relacionais dos jovens, já que muitas vezes se deparam com ausência total de pessoas conhecidas, os colegas e os amigos que foram “deixados para trás”, há que fazer novas amizades, encetar novos conhecimento em cidades praticamente desconhecidas e por vezes muito distantes da casa. Tudo isto exige maturidade emocional e uma presença, apoio e compreensão constantes da família para que esta fase seja ultrapassada com sucesso e possa existir elaboração salutar de uma construção com o espaço de identidade pessoal.
Sabemos que existem expectativas altas dos alunos para este momento tão esperado e pelo qual lutaram, e isso por vezes contribui para que o primeiro ano na universidade nem sempre resulte – a esperança depositada neste ciclo de vida pode estar distante da realidade e este confronto, em jovens menos determinados e resilientes e pouco autónomos, pode levar a dificuldades de aprendizagem ou de socialização, de aceitação, de tolerância à diferença, contribuindo para uma instabilidade emocional que termina várias vezes em desistências de um sonho alimentado pelo próprio e, tantas vezes, pela própria família.
É pois natural que o primeiro ano do curso seja difícil, e é importante perceber que este é o período decisivo para a permanência do jovem no ensino superior e, consequentemente, para o seu sucesso académico. Pode ser uma fase dura para alguns, de amadurecimento. É preciso coragem e determinação para vencer as dificuldades que obrigam a uma mudança de comportamentos que nem sempre é fácil, mas que com paciência e apoio, será com certeza, superada. Felizmente este é um fenómeno reconhecido por todos, e as próprias faculdades dispõem muitas vezes de serviços de apoio aos novos estudantes, os chamados “caloiros”, onde os colegas mais velhos desempenham um papel fundamental na receção e integração dos novos alunos.
É mais um período, uma fase, cá por casa já tivemos a experiência a dobrar e tudo acabou bem.◄

  • Publicado no Jornal PALAVRA, edição de agosto 2021