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“As mãos que são o canto e são as armas”

“Tenho apenas duas mãos e o sentimento do mundo” escrevia Carlos Drummond de Andrade, por certo já conhecedor da importância de todos os pertencentes a esta equação: mãos, sentimento, mundo.

As mãos são, talvez, a minha parte favorita de mim mesma. É com elas que escrevo, apesar de pequenas e rugosas, apesar das unhas roídas e da penugem das falanges, é com elas que desenho, que toco, que cumprimento, que abraço, que afago os meus gatos ou o cabelo da minha mãe. Gosto de mãos – são quase sempre expressivas por natureza: polegar para cima, tudo bem, polegar para baixo, dia ruim, indicador e dedo médio em “V”, tudo na paz. Punho cerrado, briga tola ou revolução, polegar e indicador em círculo, o tempero está no ponto.

Gosto de mãos, e temo-as, também: são veículo, coisas tão pequeninas, para mais assombrosas criações, do Jardim das Delícias do Hieronymus Bosch às sentenças históricas proferidas, tantas vezes, com um simples gesto.

Um gesto, claro, é de se temer; a Priberam define-o (ges·to |é|; nome masculino) como um “Movimento expressivo de ideias”. Carregam consigo mais do que trejeitos vazios: transmitem ideias, posições, olhares sobre o mundo.

Gestos aparecem-nos, a todo o momento, na nossa vida: no acenar frenético de “bom dia!” de um colega de trabalho; no dedo impaciente atirado ao ar de “se faz favor, a conta”, num restaurante.

Recentemente, deparei-me com um particular gesto que não tinha antes visto fora dos livros de História ou filmes do Spielberg. Reconhece-se, claro, por ser tão universal como o polegar para cima ou um dedo médio mais rude. Mão ao ar, estendida, hirta, esticadinha até à ponta dos dedos, fotografada em plena manifestação pela Avenida da Liberdade (que a ironia estava forte nesses dias) a propósito de uma tal inexistência de racismo em Portugal.

Protagonizado por André Ventura, será um momento que dificilmente esquecerei: dirão, claro, que poderá ter sido uma captura do pior momento; um erro de angulação, perspetiva intencional, maldade artística. Para mim, porém, foi a prova de que o único erro terá sido o de casting, escolhendo alguém para um papel que simplesmente não deveria poder desempenhar.

Se dúvidas houvesse quanto à intenção do autor (que em tantos comentários tenho lido confundida com interpretação do observador), vieram as notícias dos dias seguintes comprovar aquilo que já deveria ser uma certeza: Chega terá entretanto aderido ao grupo europeu Identidade e Democracia (ID), que integra partidos de extrema-direita como sejam União Nacional de Marine Le Pen e a Liga de Matteo Salvini.
Se dúvidas permanecessem, bastaria também ler as notícias do dia da manifestação, ou mesmo anteriores, como seja as das promessas de Ventura de trazer uma “Nova República”.

Gestos, por vezes mais do que palavras, são de se temer. Com um gesto, e pelas mãos de alguém, tudo acontece: vidas perdem-se, mundos mudam-se, vozes calam-se. No mesmo poema, Carlos Drummond de Andrade talvez previsse tal, ao falar-nos d“esse amanhecer mais noite que a noite”. Não o saberei. Sei, contudo, que nos cabe a todos trabalhar para mais e infinitos amanheceres de luz e não de noite. Para isso, temos tudo quanto basta: duas mãos, e o sentimento do mundo.