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Casimiro

Não tive grandes dúvidas de que este mês teria algo a dizer sobre os resultados das eleições autárquicas, mas a verdade é que este diário de bordo está a ser um parto difícil. Por um lado, parece-me importante falar das mudanças – pois que afinal as duas terras por onde vou dividindo existência guinaram mais à direita do que se faria prever; por outro lado, passadas duas semanas, e talvez por o temor antecipado e precipitado ter sido tanto, parece que afinal não houve tantas diferenças quanto se faria prever a um nível geral – escrevia há dias Francisco Louçã que “todos os que ganharam perderam e todos os que perderam ganharam alguma coisa”, e é bem verdade.
Olhando em retrospetiva (e não é exercício que se possa dispensar), é relativamente simples (não sendo por isso razão para cairmos em simplificações, mas cinjamo-nos ao sintético) perceber os resultados de Lisboa e de Reguengos, nem que seja porque toda a origem da mudança parte, quase sempre, de uma inquietação que gera vontade de mudar: os lisboetas estavam exaustos da cidade nas mãos de Medina, não sei se convencidos de que Moedas virá, com um programa que dificilmente podemos chamar de tal, trazer mudanças que os beneficiem finalmente; em Reguengos, houve um trabalho forte (muito mais do que em Lisboa) em tornar a então oposição numa alternativa apetecível, com um foco muito menos “partidário” e um tanto centrado em jogadas ironicamente semelhantes às tão criticadas da esquerda “políticas identitárias” – uma combinação perfeita com o desgaste generalizado dos reguenguenses com o que estaria então em vigor.
De qualquer forma, o povo falou, os números assim o demonstram, e há naturalmente que congratular o PSD quer pela campanha quer por o que desta resultou: o mudar, pela primeira vez, a cor política de Reguengos desde 1976.
O Chega conseguiu também arrecadar um punhado de votos, provando que pouco mais é do que o seu dirigente, mesmo esse perdendo a corrida à Assembleia Municipal de Moura.
Da parte da CDU, está mais do que consolidada enquanto terceira força política em termos autárquicos.
De resto, não penso senão no Casimiro cantado pelo Godinho: a maneira de melhor pensar é ter ouvido atento e ver as coisas de perto. Vê-las-emos, com certeza, nos próximos anos, tudo o que houver para ver: o que for de diferente e o que for de igual, sempre com a mente aberta o suficiente para eventuais boas surpresas, mas com o pé atrás o suficiente para não sermos apanhados na curva.◄

  • Publicado no Jornal PALAVRA, edição de outubro 2021