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Considerações sobre a morte anunciada dos ulmeiros do Parque da Cidade

A primavera está de regresso arrastando consigo a chegada das espécies de aves nidificantes que nos alegram com a diversidade dos seus cantos, pousadas nos ramos das árvores, nos arbustos e na relva aparada do Parque da Cidade!
Desde a renovação do Parque da Cidade, julgo que já lá vão dez anos, que sou munícipe assíduo do mesmo, sobretudo, durante o período do ano que somos presenteados com mais horas de sol! Um espaço moderno, acolhedor e agradável que proporciona momentos de lazer e de bem-estar aos seus frequentadores. Pessoalmente, é o eleito de todos os espaços públicos da cidade sendo um verdadeiro cartão de visita para os turistas portugueses e estrangeiros. Sempre cuidado, é verdade, no entanto, algumas vezes, com desperdícios de água com regas a horas impróprias, sobretudo, no verão. Tomara que outros espaços verdes da cidade recebessem tamanho zelo como o Parque da Cidade, e falo concretamente da Urbanização da Tapada do Carapetal onde resido, mas enfim, isso é outra conversa, a qual já tive oportunidade de alertar neste jornal e, inclusive, a autarquia através duma proposta no Orçamento Participativo local, julgo que em 2018.


O senhor presidente da autarquia chama-lhe o “pulmão da cidade”. Esta afirmação leva-me a pensar que a cidade, infelizmente, carece de espaços verdes pois considero-o um “pulmão pouco insuflado”. E por quê? Porque, e para além da evidente baixa densidade arbustiva e arbórea existente no local, os ulmeiros do parque que representam uma percentagem bastante significativa das árvores de grande porte, estão simplesmente a morrer paulatinamente, o que trará problemas, num futuro próximo, se nada for feito, ou seja, um cemitério de ulmeiros.
E quem é o responsável por este estado débil dos ulmeiros do Parque da Cidade?! Nada mais do que um inseto. No fundo, algo semelhante ao que tem vindo a acontecer com a morte de milhares de palmeiras no nosso país devido ao escaravelho-vermelho Rhynchophorus ferrugineus, só que com uma considerável diferença. Enquanto, as palmeiras são espécies exóticas, ou seja, introduzidas no país por ação humana, com exceção da palmeira-anã Chamaerops humilis, endemismo mediterrânico, com localização, em Portugal, restrita ao litoral algarvio, contrariamente, os ulmeiros são nativos da europa e, consequentemente, da península ibérica.
Recordo que o ulmeiro é uma árvore que pode atingir mais de 3 dezenas de metros de altura e viver 2 a 4 centenas de anos, cuja espécie predominante em Portugal é o Ulmus minor. O responsável pela sua vulnerabilidade é um inseto desfolhador, pertencente à ordem dos coleópteros, conhecido como besouro-dos-ulmeiros Xanthogaleruca luteola (fotografia tirada in loco com telemóvel) que lhe “esqueletiza” as suas folhas fazendo-as cair prematuramente, o que deixa a árvore mais fragilizada em contrair outras doenças, como por exemplo, a grafiose ou doença holandesa do ulmeiro, causada por fungos, cujo vetor também é um inseto. Por ouro lado, e como é óbvio, árvores sem folhas deixam de realizar a sua principal função, ou seja, o tão precioso e necessário processo fotossintético, assim como, a sombra das suas exuberantes copas torna-se praticamente inexistente e, com a chegada da primavera, os insetos adultos despertam da hibernação invernal e proliferam por cima das mesas do bar/esplanada do parque, algo nada agradável, naturalmente.


E o que deve ser feito? É preciso fazer um levantamento urgente e exaustivo de identificação das árvores doentes e atuar em conformidade, seja com corte ou poda, seja com tratamento fitossanitário, seja com cintas nos troncos para eliminar as larvas, ou outro processo qualquer pensando, simultaneamente, numa regeneração generalizada da flora do parque a médio-longo prazo!
Antes de terminar, e porque estou a falar de árvores, não posso deixar de expressar o meu desagrado, relativamente aos tão falados e desejados jacarandás e mélias, pela maioria dos reguenguenses, introduzidos em recentes espaços renovados da cidade. É verdade que são árvores que dão lindas flores assim como outros milhares de espécies, mas, infelizmente, são espécies alóctones (exóticas) e, por si só, seria o bastante para serem excluídas da solução da autarquia porque é de futuro sustentável que estamos a falar! Informo que as espécies exóticas podem trazer complicações ecológicas às espécies nativas, sobretudo, se se tornarem invasoras, como doenças, competição e descaraterização da paisagem, entre outras. Pensar em árvores só pela beleza das suas flores é um erro que se pode pagar caro. As espécies exóticas são simplesmente retiradas dos seus locais de origem para outros locais sob pretexto de serem belas, sobretudo, as suas flores?! Mas afinal o que é o belo? O belo é algo discutível que merece uma longa reflexão pois o que é belo para mim, não o será, certamente, para outros e vice-versa.
Termino com o apelo de cuidarmos dos nossos ulmeiros do Parque da Cidade, essas frondosas árvores autóctones (nativas) que, curiosamente, fazem parte das memórias da minha infância e que, tristemente, assisti à sua morte na minha rua! Um ótimo e feliz dia para todos! ◄

 

  • Publicado no Jornal PALAVRA, edição de março 2021