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Considerações sobre a sustentabilidade local, o caminho da teoria à prática

Começo com uma expressão que está muito em voga, “Sobre a sustentabilidade, já está tudo escrito!” Atualmente, cabe a cada território, independentemente, da sua dimensão, fazer o seu melhor escolhendo os objetivos estratégicos que se adequam à sua realidade relembrando as 4 grandes áreas da sustentabilidade – económica, social, cultural e ambiental!
Consciente de que o nosso contributo a nível mundial pode ser ínfimo, a verdade é que a nível local pode ser enorme, sobretudo, ao ter um impacto muito positivo na qualidade de vida de todos nós! Consciente de que temos condições favoráveis para que o sucesso da sustentabilidade local seja uma realidade, no entanto, tudo dependerá das escolhas e das sinergias entre o poder autárquico, as empresas e os cidadãos. Consciente de que a ciência não pode estar à margem das decisões políticas e de que o recurso às novas tecnologias é primordial para seguirmos em frente. Consciente de que a próxima década é decisiva para a humanidade e para o planeta. Não tenho dúvidas que o valor da sustentabilidade começa nas nossas casas com grandes benefícios pessoais e, por isso, mudar mentalidades será o maior desafio futuro, em que parte da solução passa pela informação incisiva e consistente e pela educação e formação para a sustentabilidade. Por outro lado, o consumismo exacerbado, das últimas décadas, oferecido pelo capitalismo liberal trouxe-nos até aqui. Para inverter este difícil paradigma, tudo começa nas pequenas atitudes, gestos e comportamentos sustentáveis como, por exemplo, a reutilização do saco de compras ou do pão já feita por muitos, contrariamente, às beatas de cigarro, dejetos, máscaras,… que, continuamos a ver nas nossas ruas.


Somos dos piores concelhos do distrito de Évora na separação de resíduos sólidos urbanos (rsu) para futura reciclagem. Infelizmente, e para além duma gestão de recolha, por vezes, deficitária e inoportuna nos horários, a culpa dos cidadãos, sem zelo, que deixam os seus resíduos no chão junto de ecopontos lotados é uma triste realidade. Mais do que reciclar, é preciso reduzir e reutilizar! É preciso responsabilizar os poluidores e atribuir benefícios a quem faz uma separação correta. Informo também que, a partir de 2023, os resíduos orgânicos (sobras) que representam cerca de 40% da totalidade de resíduos que chegam aos aterros sanitários também terão de ser separados e reciclados através, por exemplo, da compostagem. Relembro que apresentei uma proposta vencedora do orçamento participativo local de 2019 para a criação de um compostor municipal. A propósito de rsu, e com impacto na redução de plástico, por que razão os restaurantes locais não criam uma caixa de refeições para levar para casa aos seus clientes, personalizada e de qualidade, de preço simbólico, mas que será sempre reutilizada?! Fica a ideia entre muitas outras, como, o voltar ao vasilhame das garrafas de vidro de antigamente.
É preciso uma forte aposta em planos de poupança e eficiência energética dos edifícios públicos locais (por ex. edifícios autárquicos, tribunal, finanças, centro de saúde, escolas,…) para reduzir o consumo e, simultaneamente, poupar milhares de euros. É preciso incentivos para uma forte aposta no potencial fotovoltaico local porque é o caminho que devemos percorrer, seja em espaços estatais, privados ou nos telhados das nossas casas. Por que razão não apostarmos, num futuro próximo, numa central fotovoltaica concelhia com benefícios no custo de eletricidade para todos os residentes?! Penso que, e apesar de desafiadora, é uma ideia sustentável, justa e, verdadeiramente, comunitária.
É bom não esquecer que o desenvolvimento sustentável também é uma oportunidade para o surgimento de novos negócios e, consequentemente, de mais emprego contrapondo a pior estratégia da autarquia, nas duas últimas décadas, baseada no consumismo capitalista que “viralizou” pelos países mais desenvolvidos em que o nosso concelho, não foi exceção! Falo, concretamente, dos 4 hipermercados e dos estabelecimentos vindos do oriente instalados na nossa pequena cidade que contribuíram para a falência de dezenas ou mesmo centenas de negócios locais, é disto que estou a falar. É preciso valorizar o potencial humano e os recursos naturais do nosso território que, e para além de mais saudáveis, contribuem para uma reduzida pegada ecológica! É preciso massificar estes comportamentos! É preciso recuar 50 anos, o último em que houve equilíbrio entre o consumo e a regeneração de recursos no planeta, para retirar e reaprender as boas práticas sustentáveis, a par de valores como a humildade e honestidade em detrimento da vaidade e egoísmo humano! Sabemos que o caminho é a ECONOMIA CIRCULAR e nem me atrevo a falar, por exemplo, duma MOEDA LOCAL, apesar de já terem existido dezenas no país e milhares no mundo!
Sou apologista da eliminação da circulação automóvel, sobretudo, na zona mais central da urbe, privilegiando a mobilidade feita a pé, de bicicleta ou com recurso a veículos elétricos, como por exemplo, trotinetes elétricas disponíveis para uma população mais jovem e uma pequena frota local de minibus elétricos permitindo uma ampla e total acessibilidade a todos os munícipes.


Entre tantos exemplos sustentáveis, é preciso um ordenamento do território com mais ESTADO. É preciso acabar com as monoculturas superintesivas com abuso no uso de herbicidas e pesticidas com forte impacto na degradação do solo e, consequentemente, na qualidade da água. É preciso valorizar a biodiversidade local, a sua paisagem natural, arqueológica e patrimonial! É preciso criar guias específicos de identificação de espécies de fauna e flora do concelho priorizando a sua conservação como uma mais-valia turística. É preciso continuar a valorizar a genuinidade da nossa fala, do cante, da gastronomia, dos saberes e tradições apostando num turismo de qualidade, e jamais de quantidade. É preciso ouvir e investir nas novas gerações preocupadas com o futuro do planeta e com as suas vidas… Certo de que muito está a ser feito e certo também que muito haverá por fazer e dizer, vivo o ceticismo da mudança deste difícil caminho que nos espera, antes que o tempo se esgote. Resumidamente, estou consciente da inércia da mudança pois não há escolhas sem impactos sendo necessário valorizar os positivos e mitigar os negativos em detrimento da comunidade local.
Termino com uma frase do filósofo grego Aristóteles “O todo é maior do que a simples soma das suas partes.” Só se cada um contribuir positivamente com a sua parte é possível chegar a um bem maior relativamente à batalha da sustentabilidade local e, consequentemente, do planeta que a todos diz respeito porque não há planeta B! Um ótimo e feliz dia para todos!◄

 

  • Publicado no jornal PALAVRA, edição de fevereiro 2021