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Cuidar de doentes em tempo de Covid: “a enfermagem mostrou uma grande capacidade de adaptação ”

A enfermagem esteve na linha da frente durante um ano dominado pela pandemia. PALAVRA convidou duas enfermeiras para nos falarem das suas experiências.

Susana Capucho, tem 42 anos, licenciada com Mestrado em Enfermagem Comunitária e de Saúde Pública, trabalha nos Cuidados de Saúde Primários do Centro de Saúde de Reguengos de Monsaraz. Considera-se “uma pessoa bem disposta, criativa, um pouco teimosa e que gosta de ajudar os outros”. A enfermagem surgiu no horizonte da sua vida “quando estava prestes a concorrer à Universidade”, “Achei que podia fazer a diferença na vida de algumas pessoas”.

Rita Vieira da Silva, tem 25 anos, solteira, licenciada em enfermagem há três anos, está atualmente a trabalhar na Unidade de Cuidados Intensivos do Hospital do Espírito Santo de Évora. Considera-se “uma pessoa trabalhadora”, que gosta de estar com os amigos, de viajar e praticar desporto, especialmente o Basquetebol que pratica desde pequenina. Com três tios médicos cresceu a ouvir falar de saúde, mas tinha pensado em ser bióloga. Hoje, depois de ter optado pela enfermagem, escolha que fez por querer ajudar as pessoas, e não está arrependida.

A Susana revela sentir motivação no que faz porque a enfermagem não tem “rotinas” e é “um desafio” permanente. O trabalho varia “de pessoa para pessoa, no mesmo dia, tendo que colocar a minha criatividade em ação”. Para ela não há dificuldades porque “um simples gesto ou palavra até ao ato mais complicado” tudo é enfermagem. Não esquece que “temos que fazer um esforço para nos mantermos atualizados, que temos falta de material, de espaços físicos, de veículos, de pessoal”, mas nada disto a atrapalha.
A Rita também sente a enfermagem como “um desafio, por que estamos a falar de cuidados a pessoas e todas as pessoas são únicas” e porque “cuidar é a essência da enfermagem”. E especifica “o cuidar engloba a totalidade do ser vivo, mantendo a dignidade e a individualidade da pessoa que é cuidada” e não apenas “tratar a doença”. A maior dificuldade para a Rita no exercício da enfermagem é “conseguir ter tempo para estudar e aprender mais ao mesmo tempo que trabalho”
Atualmente a Susana presta cuidados domiciliários aos utentes da Rede Nacional de Cuidados Continuados, faz Saúde Escolar dentro das possibilidades, é comissária na CPCJ de Mourão e faz parte da equipa de vacinação contra a Covid-19.
Acredita que os doentes gostam do seu trabalham, até porque “os utentes que temos em cuidados domiciliários, a grande maioria, fica muito tempo na nossa equipa e como tal sinto que faço parte da família deles e eles da minha. Preocupo-me com eles mesmo quando não estou de serviço e sei que eles também se preocupam comigo pois perguntam por mim às minhas colegas” e o mesmo se passa com as crianças das Escolas “fazem-me desenhos, dão abraços, vêm ter comigo na rua…até me sinto importante“.
A Rita encontra-se no centro do furação Covid-19. A trabalhar em cuidados intensivos no HESE diz que é “um serviço muito complexo, pois os doentes encontram-se em estado critico”. E trabalha também num lar de idosos e numa unidade de longa duração manutenção/convalescença em que os utentes são uma “população mais idosa e debilitada”.
A vida da Susana viu-se toda alterada por causa da Covid, “ficar em casa, a mudança no horário de trabalho fazendo por vezes mais horas e menos dias de descanso, o meu filho sozinho em casa, não ver a família durante meses, mas o que sinto mais falta é do toque com os que nos são próximos”, mas no seu otimismo, vai dizendo “tudo isto vai passar e vamos recuperar o tempo perdido”.
Com as mudanças causadas pela pandemia a Rita refugiou-se no trabalho. “Apesar do trabalho exigente no hospital, procurei ocupar o meu tempo livre a trabalhar ainda mais. Uma vez que não podia manter a minha vida social com os meus amigos e fazer coisas que antes fazia, preferi ocupar a minha cabeça a fazer o que gosto: cuidar de quem mais precisa”.


A Susana, perante o vírus, inicialmente sentiu medo porque era um desconhecido, “mas à medida que o tempo foi passando o medo desapareceu e apareceu a confiança de que somos capazes de ultrapassar esta situação”. Procura manter-se atualizada “com as informações que vão saindo acerca desta pandemia, a família tem-me apoiado assim como a minha equipa. Tento ver sempre o lado positivo da situação e é claro que agradeço a Deus por me guiar neste caminho”.
A Rita também sentiu “medo de poder infetar as pessoas de quem gosto” e sentiu “tristeza por tudo aquilo que presencio todos os dias no exercício da minha profissão”, no entanto não deixa de manifestar que sentiu “revolta por não poder estar com as pessoas de quem gosto enquanto que há pessoas que continuam a fazer a sua vida como se nada fosse”. Mas sente-se compensada porque no seu local de trabalho há sempre “boa disposição” e o facto de serem “sempre as mesmas pessoas, acabam por se tornar nossas amigas”.
Nas situações de stress a Susana procura analisar a situação e responder racionalmente, porque “se tiver uma resposta emocional o resultado pode não ser o esperado” enquanto a Rita “em situações de stress o importante é não pensar muito, é fazer o melhor que podemos e sabemos”.
O que assusta a Susana é “o desconhecido, o não termos controle sobre este vírus e as suas possíveis consequências”. E a Rita teme “infetar alguém próximo e essa pessoa ficar em estado grave ou morrer, acho que seria um peso muito grande para mim”.
As forças vão encontrá-las “em tudo de bom que me acontece e nas pessoas que contribuem para isso” e na confiança que tem “nas pessoas que trabalham comigo e que me ajudam a superar essa situação porque a vivem lado a lado comigo”, diz a Susana. A “equipa extraordinária” e “as situações felizes que acontecem, porque felizmente nem tudo são só desgraças” são a fonte de energia para a Rita continuar e não esconde que sente orgulho por poder fazer parte das “histórias de sucesso e da vida de doentes que, apesar de terem estado em estado crítico, recuperaram e, neste momento já estão em casa com as suas famílias”.
O dia a dia da Susana é vivido dentro do equipamento de proteção covid. Sai “todos os dias de manhã para cuidar de quem mais precisa no domicílio”. Não pode fazer planos a longo prazo, vive “um pouco a incerteza” porque de um momento para o outro pode ser chamada “para onde fizer falta” e pode ser “para fora do concelho no combate à pandemia e na vacinação”.
A zona covid onde a Rita trabalha “é um ambiente muito pesado, diz ela, onde os profissionais estão exaustos tanto física como psicologicamente”, com turnos de “12 horas desde março do ano passado”, com os equipamentos de proteção individual horas seguidas “sem podermos beber água ou ir à casa de banho”. É um trabalho exigente porque “os enfermeiros estão 24h sob 24h junto destes doentes” dentro dos fatos dando “sempre o nosso melhor”.


Em tempos de distanciamento, no cuidado ao doente, “não pode haver distanciamento”, refere a Susana, que reduz a proximidade ao mínimo e tenta diminuir a distância através da palavra e do gesto. E acrescenta que nesta situação “foi preciso parar, repensar, reinventar, mas acima de tudo, foi necessário reajustar o nosso olhar e o ouvir, para continuar a ver e a escutar, para além dos óculos e das viseiras embaciadas, máscaras e fatos e manter o foco no doente”.
Viveu de perto situações de Covid-19 e teve “medo e nervosismos pois os meus utentes são pessoas na sua maioria muito dependentes e precisam ter um contacto muito próximo connosco”. Fez teste à covid e deu negativo e isso fê-la perceber “os Equipamentos de Proteção Individual estavam a fazer o seu trabalho e eu não precisava de ter medo de chegar perto dos meus utentes”.
Por sua vez a Rita refere que “inicialmente, existiam muitos mais medos, era tudo novo”, mas depois “esses medos foram desaparecendo quando percebi que estava num dos serviços mais seguro do hospital, uma vez que sabia que 100% dos doentes que recebia eram positivos e, por isso, estava sempre protegida com todos os equipamentos necessários”.
Nos Cuidados Intensivos vivem-se “Sentimentos de tristeza” quando os doentes estão mal, mas “quando acordam e quando lhe damos alta, a felicidade é imensa”. E perante a morte de um doente experimentam-se um sentimento de “perda”, mas diz a Rita “Sinto e sei, que fizemos tudo o que seria possível fazer por aquela pessoa”. Os doentes que sobrevivem “reconhecem o nosso trabalho e agradecem, é muito gratificante”.
A Susana entende que a pandemia ensinou que “os enfermeiros serão sempre os primeiros a chegar perto dos doentes e estarão lá para o que for necessário”. Sente que “enfermagem mostrou uma grande capacidade de adaptação na resposta a esta pandemia e por isso penso que estamos preparados para desafios futuros”.
A pandemia, para a Rita, veio mostrar “a capacidade que temos em nos adaptar às situações, principalmente em situações de crise e de pandemia… os profissionais mostraram o quanto são capazes de aguentar e de lutar”. Acredita que depois da pandemia “a profissão de enfermagem comece a ser cada vez mais reconhecida e respeitada. Senti o agradecimento por parte de muitos doentes que viram, finalmente, o trabalho dos enfermeiros”. ◄