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Editorial: Edição de março de 2021

Há um ano atrás, no dia 2 de março, ouvia-se em todos os telejornais a notícia que confirmava o primeiro doente Covid-19 em Portugal. Era um homem de 60 anos que se encontrava no Centro Hospitalar do Porto e que tinha regressado do norte de Itália. Dia 13 de março os responsáveis da Igreja Católica decidem suspender todo o serviço religioso e as igrejas fecharam. Passado uns dias, a 16 de março, a Ministra da Saúde Marta Temido, perante as câmaras das televisões, anuncia: “é com profundo pesar que o ministério da saúde informa que faleceu hoje, no Hospital de Santa Maria, um doente que estava internado e que tinha a doença de Covid-19”. Dois dias depois, a 18 de março, o Presidente da República Marcelo Rebelo de Sousa, decreta o primeiro Estado de Emergência.
Antes de se conhecerem as medidas de confinamento, expressão que rapidamente entrou no vocabulário diário, beberam-se os últimos cafés, fizeram-se despedidas, fechou o comércio, fecharam os restaurantes, os cafés e as pastelarias e encheram-se as despensas para que nada faltasse em casa. Em pouco tempo implementaram-se medidas de higiene e proteção, preparou-se a Escola à distância, generalizou-se o teletrabalho, criou-se uma onda de solidariedade para que não faltasse nada a ninguém e ninguém ficasse para trás, à medida que crescia o medo. Todos perceberam que o melhor era mesmo ficar em casa.
Quando ainda eramos inocentes, julgávamos que o vírus não chegava até nós, que era possível travar a sua entrada no território português e, levados pelo medo, queríamos as fronteiras terrestres, aéreas a marítimas fechadas para que ninguém infetado entrasse em Portugal, numa clara atitude defensiva e egoísta, mas compreensível.


No Alentejo, chegámos a pensar que o vírus tinha medo da planície e acreditámos poder continuar a cantar as modas tradicionais sem sermos tocados pelas lágrimas do infortúnio, mas isso foi como o sol de inverno, dizemos, sol de pouca dura.
Imitámos os estrangeiros batendo palmas às janelas e fazendo serenatas aos profissionais de saúde reconhecendo-os como verdadeiros heróis capazes de salvar vidas sem equipamentos e sem meios humanos.
Ainda assim, encomendámos ventiladores à China. Todos os dias havia notícias de oferta de ventiladores aos hospitais, alguns ainda não chegaram a Portugal e outros parece que não servem para os doentes covid. Montaram-se equipamentos que começaram por ser hospitais de campanha, passaram a hospitais de retaguarda, depois a lares de retaguarda e finalmente estacionaram na categoria de ZCAP.
Ainda assim, acreditámos no milagre português e fizemos acreditar os nossos parceiros europeus e não só, que havia um país nos confins da Europa, banhado pelo Atlântico, onde o vírus tinha perdido a força e se deixara vencer.
Quando já contamos 16.595 mortos e 811.306 infetados, quase um milhão, percebemos que tudo o que era a inocência daqueles primeiros dias se afundou no abismo das nossas melhores expetativas.
Veio uma vaga, veio uma segunda vaga, veio uma terceira vaga e tornámo-nos o pior país do mundo em número de infetados por 100 mil habitantes e em número de mortes por milhão de habitantes. Os epidemiologistas rodopiaram pelas televisões a dizer sempre o mesmo até conseguirem que todos compreendessem que o assunto era sério e que era preciso fechar as Escolas, último símbolo da resistência nacional.
Depressa subimos o Evereste estatístico e depressa o descemos. Tão depressa que muitos ainda não perceberam porque é que temos que ficar confinados todas estas semanas até à Páscoa, quando é tão baixo o número de óbitos e de novos infetados.


Estamos exaustos e ainda não se revelaram todos os sinais das pandemias que teremos que enfrentar daqui para a frente. Desde logo a pandemia do medo, agravada pelo último surto, que vai levar anos a vencer.
A pandemia dos pobres que já é visível nas listas cada vez maiores dos que recorrem à Cáritas, ao Banco Alimentar Contra a Fome, aos vicentinos e a muitas outras organizações não governamentais.
A pandemia dos desempregados, homens e mulheres que tinham as suas vidas asseguradas e que se veem sem o seu posto de trabalho, os que viviam situações de trabalho precário, os que se preparam agora para abrir falência, os que abandonam projetos impossíveis em tempo de crise e os que não conseguiram a tempo recriar-se de acordo com as novas tecnologias. Já se pressente o que vai acontecer a muitas famílias quando no final do mês terminarem as moratórias, que não vieram para ficar, e que vão exigir o regresso aos pagamentos mensais das responsabilidades bancárias contraídas em tempo de recuperação.
Aguardamos o resultado da vida familiar dentro de quatro paredes, onde nem sempre estar juntos é sinonimo de estar bem e onde a violência doméstica, verdadeira pandemia, aumentou no silêncio do confinamento.
Ainda ninguém sabe o impacto que o isolamento vai ter no desenvolvimento das crianças e no futuro dos jovens, em universos como a socialização, a relação, a afetividade, o desenvolvimento emocional, a criatividade, a aprendizagem, a realização pessoal, entre outros.
Ainda não percebemos como vamos reagir quando finalmente pudermos sair de casa e nos percebermos deprimidos, temerosos, desabituados do encontro, do convívio, do diálogo, desabituados da vida.
Há tantas incógnitas neste momento das nossas vidas.
Vivemos entre o já e o ainda não. Já vencemos, mas ainda não. Já temos vacina, mas ainda não. Já está a acabar o confinamento, mas ainda não. Já podemos começar a preparar o regresso aos negócios, mas ainda não. Já somos pobres, mas ainda não o suficiente.
Precisamos de nos preparar para reaprender. Reaprender a viver, a sair de casa, a regressar ao trabalho, à Escola e ao desporto. Precisamos de reaprender a estar uns com os outros, a falar diretamente, olhos nos olhos, com confiança. Precisamos de reaprender a viver com corpo, com pernas para andar, coração para amar e cabeça para sonhar. Precisamos de reaprender a viver sem medo, sem paredes, sem fronteiras. Precisamos de reaprender a respirar o ar puro dos campos e a sentir o vento no rosto, a chuva a molhar-nos a pele, o frio a gelar os ossos, o mar e o sol. Precisamos de reaprender a saltar de entusiasmo, a rir das palhaçadas uns dos outros, a gritar e a esperar o eco da nossa voz, a ouvir as vozes da multidão e a ver a beleza da natureza ou das criações artísticas.
Estamos exaustos, mas não podemos hipotecar a vida nem ao passado nem ao presente. Temos que reaprender a certeza do futuro.◄

 

  • Publicado no Jornal PALAVRA, edição de março 2021