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Editorial Janeiro 2023

A morte de Joseph Ratzinger obriga a uma reflexão para a qual nem sempre estamos dispostos por não chegarmos a compreender o mistério que se esconde numa vida e, particularmente na vida de algumas pessoas que não se resignam à monotonia dos dias, mas têm a coragem de intervir na história, mesmo conscientes de que a sua intervenção vai contra a corrente.
Por vezes a nossa forma de olhar a realidade de uma pessoa, transforma uma vida num momento e também pode suceder que transforme um momento numa vida. A distância provocada pelo tempo faz-nos esquecer pormenores muitas vezes importantes e faz também com que valorizemos apenas o que mais impacto teve sobre nós, não necessariamente o mais importante. É assim também com Joseph Ratzinger, que conhecemos como Papa Bento XVI. A sua vida é maior que o tempo durante o qual ocupou a cadeira de Pedro e não se reduz à perspetiva de cada um, nem às expetativas criadas ou falhadas de acordo com as notícias ou opiniões que os meios de comunicação veicularam.
Ratzinger foi Pedro para a Igreja e para o mundo quase oito anos. Alguns viram-no pela perspetiva intelectual, outros pela qualidade da sua teologia, outros pelas decisões que tomou enquanto presidente da Congregação para a Doutrina da Fé, alguns viram-no na perspetiva das suas afirmações durante o tempo em que foi Papa, outros consideram-no muito simples, humano e tímido, outros, antipático e distante, alguns foram mais básicos e avaliaram-no pela cor dos sapatos.
A pessoa não é apenas uma perspetiva e uma pessoa como Joseph Ratzinger ou Bento XVI não é apenas o que pode ver-se numa determinada perspetiva, porque a sua vida é imensamente mais do que pode ser visto à distância de uma opinião particular sobre ele ou mesmo de uma palavra ou decisão tomadas num determinado momento e contexto com motivos e razões que a grande maioria não entende.
A vida de Joseph Ratzinger tem particularidades que se escondem aos olhos de muitos porque exigem mais do que o exercício falacioso de uma opinião, requerem reflexão sobre o mistério que se esconde por detrás da realidade humana, dos sinais dos tempos, do mistério da Igreja, do ministério de Pedro e da presença invisível de Deus.
Tendo sido Papa, é curioso que não nasceu Papa e não morreu Papa. Por vezes os nossos olhos enganam-se e querem ver Joseph Ratzinger como se ele tivesse sido sempre Papa, mas a realidade diz, que a maioria dos seus noventa e cinco anos os viveu como um comum dos mortais, como sacerdote, sim, professor, por certo, investigador da verdade, com certeza, como Bispo e Cardeal, porque foi escolhido, e apenas oito anos como Papa porque os seus pares o elegeram.
Durante os seus noventa e cinco anos o que fez Joseph Ratzinger de mais importante? Alguns queriam mais proximidade, outros queriam reformas estruturantes da Igreja, outros queriam mais flexibilidade intelectual, para dizer algumas. Joseph Ratzinger fez o que tinha que fazer, um caminho com Jesus que o levou de um conhecimento simples do catecismo de criança até uma amizade profunda, da qual ele fala numa entrevista, até chegar ao amor incondicional que entrega a vida toda nas mãos do amado.
Não é isto que se pede a Pedro e a todo aquele que ocupa a sua cadeira como seu sucessor? Basta ler o evangelho de João 21, 15-17 para perceber. Ali pode ler-se “Jesus perguntou a Simão Pedro: «Simão, filho de João, tu amas-me mais do que estes?» Pedro respondeu: «Sim, Senhor, Tu sabes que eu sou deveras teu amigo». Jesus repete a pergunta por três vezes exigindo uma resposta a Pedro, porque não lhe basta que Pedro seja seu amigo.
A explicação que encontramos no rodapé do texto bíblico refere que no texto grego original Jesus utiliza na primeira e na segunda pergunta um verbo “de amor mais divino, profundo e intelectual (agapas me = amas-me?), enquanto Pedro responde com um verbo de simples amizade (filô se =gosto de ti); no entanto, na terceira pergunta Jesus utiliza o verbo de Pedro perguntando-lhe se era seu amigo e aí Pedro entristeceu-se e cresceu até ao que lhe era pedido anteriormente e afirmou “Tu sabes tudo; Tu sabes que te amo”.
Joseph Ratzinger chega ao fim da sua vida e repete com Pedro nas suas últimas palavras “Jesus eu amo-te”. O que se pede a um Papa? Que reforme a Igreja ou que chegue até ao amor a Jesus e leve nesse amor toda a Igreja? E se possível leve também nesse amor o mundo inteiro.
A vida de Joseph Ratzinger ou Bento XVI ainda não está disponível para avaliação pela opinião particular, é cedo demais para que se possa ver a grandeza que se esconde nas entrelinhas do que foi dito e escrito nos jornais de todo o mundo durante a sua vida e no último mês perante a sua morte.◄

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