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Editorial

Há quase um ano que vivemos em pandemia. A vida de todos os portugueses ficou virada do avesso. São muitos os que hoje se sentem cansados por causa de dois meses de confinamento geral, vários meses de incerteza, um verão mal saboreado, férias sem o devido descanso por causa da intranquilidade que o vírus impôs e os sucessivos Estados de Emergência que não deixaram viver com a habitual alegria o Natal e a chegada do Ano Novo. Estamos cansados desta obrigação permanente de estar atentos às mãos, ao álcool, à máscara, à distância, aos contactos. Estamos cansados e a dar sinais de nervosismo. É natural.
No início, quando julgávamos que isto passava com um mês ou dois de confinamento, ainda pensámos que íamos ficar melhores. Melhores pessoas, melhores pais, melhores filhos, famílias mais unidas e compreensivas, melhores amigos e colegas de trabalho mais colaboradores, melhores vizinhos e melhores cidadãos. No início acreditávamos poder construir em três dias um mundo mais solidário, mais fraterno e mais irmão. Tínhamos um propósito que era não deixar ninguém para trás, não deixar ninguém sozinho e não deixar ninguém esquecido.
No entanto, com o passar do tempo, estamos a dar-nos conta de que tudo está a mudar à nossa volta mas nós, um “nós” global, não estamos a ficar melhores pessoas. Vejam-se os comentários agressivos nas redes sociais, como se todos se estivessem a portal mal e apenas uns quantos perfeitos a cumprir as regras sanitárias de prevenção contra o vírus. Tornámo-nos polícias uns dos outros, denunciadores do mau comportamento de alguns como meninos que se acham bem comportados e que não se importam de perder a liberdade de agir e pensar pela própria cabeça.
No início, ainda acreditámos que os responsáveis políticos estavam do nosso lado e que iam ajudar na proteção dos mais vulneráveis, na manutenção dos empregos, na proteção aos desempregados e das pequenas e médias empresas, mas depressa desacreditámos porque as ajudas tardam e para alguns já não vão chegar a tempo. A “bazuca” nunca mais vem e quando chegar vai voar nas asas dos aviões da TAP e em mais duas ou três obras públicas tidas como emblemáticas, adjudicadas a empresas estrangeiras a quem ficaremos eternamente agradecidos e endividados. É esta a perceção que temos hoje.
Não estamos melhores, estamos diferentes. Estamos mais sensíveis e a precisar de desabafar o que nos vai na alma, e o que nos vai na alma é a tristeza por ver as lágrimas nos olhos de muitos comerciantes a quem incentivámos a pedir os auxílios que eram prometidos e que anunciámos nas páginas deste jornal no mês de junho: “Com o objetivo de atenuar os possíveis impactos tanto da pandemia como das obras, foram criadas medidas de apoio às famílias, empresas, associações e instituições de economia social. De acordo com o município, a “concretização das ações e medidas” é assumida, na sua totalidade, pelo orçamento do Município de Reguengos de Monsaraz. A Autarquia afirma que foram canalizadas as verbas previstas, em orçamento municipal, para atividades e eventos que, devido à pandemia, se viram cancelados. Nestas verbas incluem-se as Festas de Santo António e o Monsaraz Museu Aberto, que contribuíram para a dotação do Fundo Municipal de Emergência (que já conta com 400 mil euros)”.
Incentivados por nós preencheram papéis e mais papéis na esperança de conseguir um apoio e no final dizem-nos que não receberam nada. Hoje mesmo, em vésperas de um novo confinamento geral, diziam os proprietários de um estabelecimento comercial: “fizemos tudo o que nos disseram e tratámos dos papéis que nos pediram. Até nos pediram o extrato do ano anterior para comparar e sabe o que nos deram? Um garrafão de álcool gel e umas máscaras. Diziam que era o orçamento das Festas de Santo António e Museu Aberto…”. Perante as lágrimas fazemos silêncio, mas “vemos, ouvimos e lemos… não podemos ignorar”.
Não estamos melhores, estamos mais atentos, por isso, vemos o esforço que vai sendo realizado por muitos na reconstrução da economia. Há quem acredite e abra a porta todos os dias na esperança de que será melhor. Há até quem se aventure a abrir um negócio em vésperas de novo confinamento. Desejamos que tenham sorte. Há quem se transforme e transforme os seus negócios adaptando-os aos novos tempos e às novas necessidades com vontade de vencer.
Vemos também a dedicação de alguns, num esforço continuado de ajuda a quem precisa, uma solidariedade de todos os dias que não aparece nas páginas do Facebook nem tem direitos de reconhecimento nos telejornais de horário nobre. O pão, o leite, o arroz, a conta da eletricidade e da água, às vezes de meses atrasados, um sorriso, uma palavra.
Vemos a dedicação de filhos, gente com nome, que cuidam dos pais idosos com esmero, atenção, proteção, de dia e de noite e tremem só com a ideia de que eles tenham que ir ao hospital. Vemos esposas a cuidar de maridos em situação de risco e maridos a cuidar das esposas limitadas nas suas capacidades. Vemos o risco de todos os que trabalham nos Lares de idosos, sobretudo aqueles que limitaram voluntariamente a sua vida pessoal para não correrem o risco de levar para dentro da instituição que servem, o vírus fulminante.
Vemos muito amor no coração de muita gente e acreditamos que esse amor é maior que todos os males. É acreditando nesse amor genuíno de que o ser humano ainda é capaz que temos a certeza que o ano 2021 vai ser um ano muito feliz.◄

 

  • Publicado no jornal PALAVRA edição de janeiro 2021