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Entrevista com Manuel António: “o que mais me agrada mesmo sãos os sorrisos e os olhares de satisfação dos nossos utentes”

Manuel António Conde Galante, 66 anos, casado há quarenta e quatro anos, um filho com quarenta e três, iniciou a sua vida profissional aos 12 anos numa mercearia, depois trabalhou na fábrica das mantas e, ainda não tinha quinze anos entrou na Fábrica de Celulose do Guadiana, onde esteve 32 anos, até que esta foi desmantelada, em virtude do projeto do Alqueva, tendo integrado a equipa do projeto de construção da nova fábrica junto às Ferrarias.
Há quase trinta anos que exerce o cargo de Provedor da Santa Casa da Misericórdia de Reguengos de Monsaraz, tendo sido iniciado no serviço a esta instituição como vogal da Mesa Administrativa, pelo então Provedor, o Senhor Padre Eduardo. Desde o início ocupou também cargos no Secretariado Regional de Évora da União das Misericórdias Portuguesas, eleito há doze anos pelos seus pares como Presidente deste órgão.

1. A celebrar 160 anos da fundação da Santa Casa da Misericórdia, que leitura faz do passado desta instituição a que preside no contexto social de Reguengos de Monsaraz?
A 7 de Abril de 1861, data em que se recebeu a carta régia que permitia a constituição na Vila Nova de Reguengos de uma Casa de Misericórdia que se passaria a denominar de Santa Casa da Misericórdia, já existia a Irmandade de Nossa Senhora da Misericórdia, fundada no ano anterior, o que demonstra bem o empenho das pessoas da Vila em ajudar os mais necessitados, levando em conta as dificuldades vividas por grande parte da população, de notar que estamos a falar de poucos anos após a passagem do Concelho para Reguengos, resultado dos conflitos entre liberais e absolutistas.

2. Que peso tem esta instituição na cidade?
Uma Instituição que apoia cerca de seiscentas pessoas, e dá emprego a outras cento e dezasseis, tem valor em qualquer cidade, principalmente no Alentejo, territórios de baixa densidade populacional, mas esse peso sentimo-lo nós, no compromisso assumido de responder às necessidades de quem nos bate há porta, e de casos sinalizados por nós e outras Instituições, a que urge acudir.

3. Qual é a função e missão do Provedor da Santa Casa da Misericórdia?
O Provedor dirige a Mesa Administrativa constituída por sete irmãos, órgão executivo, da Irmandade da Misericórdia, as suas competências estão plasmadas no Compromisso (Estatutos) da Santa Casa, devendo ter sempre presente a natureza e Missão da Instituição.

4. Que aspetos do exercício da função de Provedor lhe dão mais satisfação? Que situações lhe provocam mais desalento?
A satisfação que posso sentir é sempre relativa, uma vez que não temos capacidade para responder a todas as necessidades, mas sim fico satisfeito, quando conseguimos o bem-estar de alguém através da nossa ajuda, nem que seja apenas um único caso. Mas o que mais me agrada mesmo sãos os sorrisos e os olhares de satisfação dos nossos Utentes, costumo dizer que são a melhor sistema de avaliação.
A insatisfação advém das contrariedades, internas ou externas, situações em que temos tudo para fazer mais e melhor e não conseguimos, quando não somos ouvidos, ou somos mas não há resposta cabal.

5. Que respostas tem em funcionamento a SCMRM neste momento? Que avaliação faz do seu desempenho?
A Instituição está dividida em Áreas de acordo com as nomenclaturas da Segurança Social, ou seja: Área da Infância e Juventude, Área da População Adulta e Área da família e Comunidade:
– Área da Infância e Juventude: Creche, Pré-Escolar, CATL e Intervenção Precoce;
– Área da População Adulta: ERPI (Lar de Idosos), SAD (apoio domiciliário), Centro de Dia, Lar Residencial e CACI, esta duas últimas para pessoas portadoras de alguma deficiência;
– Área da Família e Comunidade: SAAS (Serviço de Atendimento e Acompanhamento Social), Ajuda Alimentar e Cantina Social.
Além destas Respostas Sociais, temos os Serviços de Suporte, que são as Áreas Administrativa e Financeira e a Área de Serviços Gerais, assim como várias acessórias.

6. As instituições de Solidariedade Social abriram telejornais e encheram páginas de jornais sobretudo no início da pandemia e por causa dos Lares de Idosos (ERPI). Como se viveu esse tempo na SCMRM?
Vivemos como todas as outras Instituições, ninguém estava preparado para esta tragédia que se abateu sobre todos nós, e que me abstenho de falar nos efeitos devastadores a vários níveis, que bem conheceis, e infelizmente muitos de nós sentimos na pele. Mas quem viveu de perto esta realidade nas nossas respostas sociais, não pode deixar de se emocionar e quase chorar, ao recordar essas vivências, porque foi aí, no meio de toda essa tragédia, que todos nos unimos na proteção dos mais vulneráveis à nossa guarda, e não só, porque como bem sabem as nossas equipas de apoio distribuíram refeições e produtos alimentares a comunidades de trabalhadores estrangeiros, de nacionalidade Indiana, Paquistanesa, Nepalesa e Brasileira, que estando positivos, ficaram isolados em habitações, na fase mais critica da pandemia.
No caso concreto da nossa Instituição, mas transversal a todas as outras, as nossas trabalhadoras e trabalhadores, transformaram-se em autênticos guerreiros, e com grande coragem enfrentaram o bicho, na proteção aos nossos velhotes, portadores de deficiência, e crianças, numa luta desigual, autênticos heróis e heroínas, deixando tudo o resto para trás, se entregaram e deram de corpo e alma, sempre acompanhadas pelas equipas de saúde, as nossas enfermeiras/os que foram muito para além do que lhes era exigido pela sua função, formando e orientando o nosso pessoal, sempre presentes para opinarem e aconselhar quem dirige a Instituição. Seria injusto, se não manifestasse também o reconhecimento pelo apoio sempre pronto da Saúde Pública, Segurança Social e Autarquia, e como não poderia deixar de ser da UMP, no início com alguma desarticulação que consideramos normal, mas que rapidamente se transformou num trabalho em rede magnifico, e que gostaríamos que continuasse.
Foi muito difícil, mas tudo fizemos para que nada lhes faltasse, EPI’s, testes e outros produtos e equipamentos, e muito importante o Plano de Contingência, conhecido, aplicado e revisto sempre que necessário, era este o nosso dever enquanto dirigentes.

7. Como Provedor quais foram as suas preocupações? Que sentimentos experimentou?
Sentimentos vários, de impotência e incapacidade, de revolta até, mas como referido anteriormente de um arregaçar de mangas para enfrentarmos o vírus. Como ajudar? como conseguir tudo o que era necessário, em termos de EPI’s? Como cumprir com todas as regras e para além delas? Como proteger os nossos utentes e trabalhadoras/es? E a grande preocupação com os custos enormes e crescentes.

8. Os cuidados médicos foram tema durante a pandemia relativamente aos Lares de Idosos. Que pensa sobre esta matéria e que responsabilidade entende que as instituições têm neste âmbito?
Querendo ser justo, afirmo que todos nós temos uma enorme divida de gratidão para com os profissionais da saúde, pela forma como se deram e entregaram nessa luta, é claro que com a limitação de recursos humanos e materiais, não conseguiram responder a todos os nossos anseios, na nossa Instituição, tanto na ERPI como nas outras Respostas Sociais tivemos sempre uma resposta pronta da Saúde Pública em relação á pandemia.
As ERPI’s acolhem pessoas cada vez mais dependentes, com necessidade de cuidados de saúde que as nossas trabalhadoras, por muito que se esforcem não tem conhecimento nem condições para prestar, para tal existe uma equipa de enfermagem, que lhes tem prestado esses cuidados, assim como o apoio de um Médico umas horas por semana, que fazem um trabalho excecional, devo referir.
Ao serem admitidas para uma ERPI, os nossos velhotes, como carinhosamente lhes chamo, não perdem os direitos plasmados na Constituição, sendo um deles o acesso á saúde. Com a falta de recursos, que referi anteriormente, é claro que os seus médicos de família não os podiam assistir, se estavam direcionados para outras tarefas, no combate á pandemia. No entanto nenhum dos nossos Utentes deixou de ser atendido em situação de emergência.
Questão diferente tem a ver com a presença de um médico nas ERPI’s, que em face do elevado grau de dependência, em que nos chegam os Idosos, parecerá claro para todos, dirigentes e famílias, que será necessária e importante, mas o acordo de cooperação com a Segurança Social e a legislação em vigor, apenas indica a obrigatoriedade da equipa de enfermagem dimensionada em face do número de utentes. E aqui, a contragosto tenho de falar dos números, de quem suporta os custos, a Instituição, o Utente, as Famílias ou a Saúde? A nosso ver deverão estes custos ser suportados pelo Estado, através do que vier a ser negociado nos Compromissos de Cooperação. Até porque em certa medida os serviços de saúde serão aliviados.

9. No entender de alguns entendidos os Lares de Idosos deviam ser como hotéis e no entender de outros como hospitais. No seu entender que configuração devem ter os Lares de Idosos para responder aos desafios de um envelhecimento ativo?
É uma questão muito discutida entre nós, as Instituições com Lares de Idosos têm de ser capazes de se adaptar às realidades atuais, tendo em conta as características das pessoas que precisam dos nossos cuidados agora, e no futuro, sendo um grande desafio para todos os envolvidos, Estado e Instituições. As respostas para idosos em situação de grande dependência, com ou sem demências, as chamadas Unidades de Cuidados Continuados de Saúde, construídas ou adaptadas no mesmo espaço dos Lares, ou noutro, para responder às características dos cuidados que estes necessitam. Por outro lado garantindo o direito à privacidade e permitindo a participação voluntária, em atividades de grupo ou individuais.

10. A deficiência aparece muitas vezes como o parente pobre da ação social. Neste âmbito a SCMRM tem uma larga experiência. Que visão tem do problema e que tipo de resposta desejava ver implementada?
Pode haver alguma diferença entre o desejável e a necessidade na resposta imediata, que neste momento são mais camas em Lar residencial, e mais vagas em CACI (CAO), ambas difíceis de conseguir por causa dos espaços, estando a Mesa a envidar esforços para a sua resolução. A urgência na resposta prende-se com vários fatores, mas principalmente por doença ou envelhecimento dos cuidadores, nas suas habitações. Outro aspeto é a necessária e desejável integração profissional de algumas destas pessoas na comunidade, nos casos em que for possível, e que está a ser trabalhada, envolvendo os técnicos da Instituição e a Comunidade.

11. Que implicações tem para a SCM a decisão governamental relativamente às creches gratuitas? A SCMRM é abrangida pela medida? O Estado garante o pagamento integral das despesas atualmente suportadas pela SCMRM?
Sim a Santa Casa está abrangida por essa medida, ou seja, as famílias que frequentam a nossa Creche, cujos rendimentos per capita, os inclui no primeiro e segundo escalão, se tiverem irmãos a frequentar, da tabela das comparticipações familiares, não pagam o valor correspondente, estando a Segurança Social a pagar à Instituição.

12. Num momento em que os preços dos bens essenciais estão em grande subida, como sobrevive a SCMRM?
O termo que aplicou é mesmo esse, como sobrevivemos, porque até esta data falávamos em sustentabilidade das respostas sociais, neste momento as grandes preocupações são de tesouraria, e de como fazer face ao aumento dos produtos essenciais. Já houve reuniões dos dirigentes da UMP; CNIS, Mutualidades e Confecoop, com o governo no sentido de obter apoios imediatos, não aguentaremos muito tempo sem esses apoios. Instituições como a nossa, já com alguma dimensão deverão também olhar para dentro, e rever procedimentos com vista á gestão dos recursos, quer humanos, quer materiais.

13. Que lhe ocorre dizer perante o facto de o Governo se apressar a dar subsídios a alguns setores da economia para diminuir os encargos causados pela subida dos combustíveis e não ter a mesma atitude para com as IPSS?
Neste momento penso que estará para sair, se é que não saiu já um pacote de medidas, que responderão em parte às necessidades, mas pelo que já tive oportunidade de ler, serão insuficientes, e digo isto com convicção, com números e informação cruzada entre as Misericórdias.

14. Que projetos tem a SCMR para curto prazo? E a longo prazo?
Normalmente as Instituições da nossa natureza, tem sempre o desejo de melhorar e fazer mais, mesmo nestes momentos de grandes incertezas em relação ao futuro, faz parte do nosso ADN, como atrás referi temos em mente ampliarmos a resposta dada às pessoas com deficiência, prepararmo-nos para o futuro dos Lares de Idosos, e aumentar um pouco a capacidade de resposta, assim como um novo modelo de SAD, serviço de apoio domiciliário, que consiga dar uma resposta mais qualificada, e com mais serviços, com o objetivo de manter os nossos velhotes, na sua habitação pelo maior tempo possível. Tudo isto sem nos esquecermos das projeções demográficas e do território em que estamos inseridos.

15. Quantos irmãos tem neste momento a SCMRM? Tem havido renovação com entrada de novos irmãos? Qual a média de idade dos irmãos?
A Irmandade da Santa Casa da Misericórdia tem neste momento 331 irmãos, tem havido admissão de novos Irmãos, ainda jovens, mas poucos, o que mantém a Irmandade muito envelhecida, há muito trabalho por fazer em relação á renovação.

16. Há interesse da parte dos jovens em participar nos órgãos sociais da SCMRM?
Se me permite, julgo que até haverá interesse, a questão coloca-se ao nível da conciliação profissional e familiar, e a ocupação com a participação nos respetivos órgãos sociais.

17. Sendo o presidente da União Distrital das Misericórdias, conhece bem todas as Misericórdias do distrito. Que avaliação faz do futuro destas instituições?
Como Presidente do Secretariado Regional de Évora, a avaliação que faço em conjunto com os meus colegas é de um futuro com muitas dificuldades, e provavelmente vamos assistir ao encerramento de algumas respostas sociais, como unidades de saúde e até a falência técnica de algumas Instituições mais pequenas. Se fosse há uns anos atrás diria que as Misericórdias já existem á mais de quinhentos anos, passaram por muitas crises e processos de nacionalização dos hospitais, e no entanto ainda existimos, presentes e no cumprimento da nossa missão, mas no momento atual, estou muito preocupado.

18. No conjunto das Misericórdias do distrito de que forma avalia a SCRM?
É difícil ser juiz em causa própria, mas a Misericórdia de Reguengos de Monsaraz, tem sido capaz de se manter ativa, ajudando quem mais precisa e contribuindo para melhorar um pouco a vida das pessoas que se cruzam com ela, se conseguir continuar nesse caminho, sem esquecer as suas raízes fundacionais, penso que posso avaliar bem. Cada uma delas na sua localidade, no seu concelho estará a fazer o melhor possível, não temos como medir isso, é pelo número de trabalhadoras/es, de Utentes? É tudo muito relativo, o que mais nos empenhamos é estarmos próximos das pessoas a quem servimos, e são 25 Misericórdias no nosso Distrito, não tendo três delas por enquanto qualquer resposta social. ◄