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Morreu uma ativista católica que não pode ser esquecida

Faleceu na passada segunda-feira, dia 29 de março uma católica ativista que lutou contra o regime do Estado Novo, que enfrentou a PIDE e esteve na Capela do Rato na Vigília de 48 hora, iniciada em 30 de dezembro de 1972 e só terminou com a entrada da polícia.

Maria da Conceição Moita, faria na próxima segunda-feira, 5 de abril, 84 anos, esteve presa em Caxias até ao 26 de abril de 1974, por ter dado apoio a comunistas. Antifascista, lutou contra o colonialismo, contra a guerra, pela proteção social das prostitutas e dos sem-abrigo, entre outras causas.

Apesar de companheira de alguns ativistas que queriam a luta pelas armas, ela nunca aceitou seguir por esse caminho. Tinha um método próprio que assentava na “tolerância, como princípio; a pedagogia, como meio; a justiça, como fim”

Tinha uma certeza: “Não tenho medo de morrer porque vou ver Deus” e «Sentia, para ela e para todos, que não há nada que nos possa separar do amor de Deus manifestado em Jesus».

Perante as dificuldades das pessoas perguntava: “O que posso fazer? Que forças podemos congregar?” A sua vida passava por: «Contemplação e ação alimentadas na relação viva com a pessoa de Jesus».

Deixou um testamento que se transcreve de seguida:

Testamento

Gostava de vos deixar sobretudo a certeza de quanto vos amei,
com toda a ternura, por vezes com falta de jeito.
Se vos magoei nalgum momento, mesmo sem intenção, peço desculpas.

Queria muito que guardassem de mim esta ideia – só vale a pena viver com um encantamento, com um sentido. Persegui-lo é o mais importante.
E saber que na vida, todo o bem é possível.
E que a frescura do riso é coisa a não perder.
E os amigos, o dom surpreendente de cada dia.

Que a grande tarefa é ir fazendo mais humano o tecido das relações, no tempo que nos é dado. E gastar a vida, a transformar o mundo que espera pela justiça e pela fraternidade.
Não deixar, a todo o custo, endurecer o coração. Porque o amor é de tudo o mais importante. Dá sentido à vida e é mais forte que a morte.

Queria que soubessem que fui uma mulher feliz. E que fiz a experiência do sofrimento indizível. Parece contraditório, mas não é.

Trabalhei em projetos com um empenhamento que me iluminou a vida. Fiz caminho a caminhar.
Tive a grande dádiva de ter comigo uma Mão que sempre me salvou. E é bem verdade que conheci a alegria mais funda.
É na certeza limpa e leve que parto, sabendo que na vida não existem ruturas e acreditando que o que me espera é a plenitude do que procuro, sem ser possível imaginar.

Obrigada por tudo quanto me deram. Gratuitamente.

Até sempre.

Xexão

Maria da Conceição Moita