jornalpalavra

jornalpalavra

Nasceste-me

Se eu pudesse abraçar-te, faria isso como se abraça um amigo de quem temos muita saudade. Tu vives na minha casa, é certo, e eu ainda esta manhã aqui havia passado, tal como ontem. Passei por aqui tantos dias deste ano e tantos anos desta casa, e tantas casas desta vida. Mas sabes, por mais vezes que passemos por Ti, ficamos sempre com a sensação que ainda não te conhecemos tudo.
Eu sei que não falas muito, pelo menos da forma a que estamos habituados a sentir falar, a ouvir falar, a ver falar e a falar por falar como se fala com palavras, e sons e gestos, e alegrias e tristezas e nervos e entusiasmos, e risos e gritinhos entre palavras de alegria, e lágrimas, por vezes lágrimas de dúvidas e coisas tristes, e outras vezes por não sei o quê…por nada, na verdade quando choro é por nada… choro por nada e nem sei porque é que ainda faço isso quando a vida continua a sorrir-me tanto…
Tu sorris para mim, mesmo quando não sei onde tu estás, sinto que sorris para mim. Tu sorris sempre lá do alto do céu para onde foste viver quando morreste por nós. Eu nunca saí daqui, mas tu sim, dentro dos dias onde vivo, vou-me lembrando de me lembrar de ti. Depois toca o telefone e não consigo mais continuar a pensar em ti, nem nas tuas coisas, nem na tua vida dentro da minha vida, nem dos sonhos que tenho para falar de ti enquanto vivo. Depois o dia envolve-me e a noite chega, e o cansaço bate-me na madeira na cama e fico perdido nas palavras que digo, e nas palavras que deixo cair, e nas palavras que ficam apenas no coração. E nas minhas mãos a dezena de madeira escura, sorri para mim, sorris tu por me veres naquela figura, sem ser capaz de continuar a falar contigo. Adormeço assim caído entre uma Ave Maria pequena e as contas que deixam de rolar na mão.
Se eu pudesse abraçava-te mesmo contigo aí deitado, entre o olhar doce da tua mãe e o vagar assustado com o que o teu pai olha para o teu futuro. É quase noite. Os Homens esperam que tu lhes nasças e demasiadas vezes não fazem nada por isso. Esperam apenas que tu faças a tua parte, nascer para que a vida de outros seja vida. Mas eu sei que depois tu morres, sei que fazes da tua vida uma aventura sem igual e que tenho lugar nessa longa história que não termina nunca. E eu nunca te consigo salvar, todos os anos tento dizer-te para nasceres com menos ideias transformadoras e tu dizes-me sempre que essas ideias são para mim, são por mim, são para que em mim possas nascer. Tu nasces-me todos os dias, pegas em mim e na minha vida e mais nas tuas ideias transformadoras e abanas o mundo todo com elas, comigo a baloiçar lá no alto da tua grandeza, de boca aberta umas vezes, de olhos fechados outras tantas. Depois grito e tu põe-me no chão e eu falo, e eu canto, e eu olho para os outros e eles já não me conseguem ver, olham para mim e só te vêm a ti. Não quero ir-me embora daqui esta noite. Vou ficar um pouco mais de joelhos no chão enquanto te ajeito as palhinhas na madeira. Nasceste-me na madeira e vais morrer-te na madeira. Nunca tinha pensado nisso. És a árvore da vida, transformas pessoas como eu em pessoas que são tu quando os outros nos olham, e dessa árvore que tu és, nasceram árvores que te acolheram neste dia, e outras árvores que te levaram em cruz para junto do Pai que está no Céu. É por isso que tu és a vida toda, és mais do que a vida toda, és toda a vida dentro de mim e mais a vida dos que agora dormem ali no sofá enquanto eu, lutando para que sejam felizes, aqui esteja contigo porque tu nasceste-me. És uma luz terna e suave…
Se tu pudesses podias abraçar-me antes de eu me ir embora? Ou será que acabaste de o fazer outra vez? A luz trémula desta vela que veio de Belém, és tu luz terna e suave, diz-me que mesma agora te mexeste, deste uma volta na manjedoura e o anjo olhou para trás como se procurasse algum sinal do tempo, alguma volta no mundo. Se calhar vieste abraçar-me e nem dei conta, raramente damos conta não é? Estamos sempre preocupados com o que trazemos nas mãos e nunca nos preocupamos com as próprias mãos. Às vezes ando com elas abertas um dia inteiro, e depois, ao final do dia quando as volto a fechar uma contra a outra, descubro que estão cheias de coisas que fiz, estão cheias de ti, estão cheias de vida, estão cheias por que tu nasceste-me outra vez, e só tu consegues fazer isso. Queria sublimar a minha vida, torna-la mais próxima do céu, torna-la menos presa e menos pesada aos pesos todos que carrego em mim. Queria que tudo o que sou neste dia, conseguisse tornar-se espirito de Deus na minha casa, capaz de querer ascender ao céu depois de uma vida de coisas normais, com pessoas normais. Queria ser um suspiro do Senhor e subir ao céu, olhando de lá de cima cá para baixo para me ver a ser melhor, a ser melhor para os outros, a ser melhor para Jesus a ser capaz de nascer com Ele, a deixar que Ele me nasça e que nascendo n´Ele nunca mais consiga morrer por ficar assim parado, numa noite como esta, onde o mundo lá fora continua a rodar e eu aqui dentro, invento um abraço para que tu não me morras nunca.
Nasceste-me. Eu sei que nasceste-me e que é por isso que te vejo agora, e que é por isso que te canto agora, e que é por isso que te rezo agora, e que te abraço na minha vida para que tu nunca te vais embora. O que seria da minha vida se tu te fosses embora? O que teria eu para dizer aos outros se num dia tu estivesses comigo, e no dia seguinte eu te deixasse ir. De quem falaria eu com eles? Que mais valia teria eu para ser eu, se tu por seres tu, resolvesses morrer-me para sempre. Nasceste-me e isso foi das coisas mais bonitas que me ensinaste a ser. És a luz terna e suave. Agora vai lá, descansa aí desse lado que a tua vida vai ser uma aventura desde a primeira hora. Tenha pena de não poder crescer contigo, nem de ir contigo, e ser um dos 12, e ficar com boca aberta com as coisas que tu vais dizer. Tenho pena de perder isso no teu tempo, mas não perderia por nada a possibilidade de fazer tudo isso neste tempo que é o meu. Estarei sempre deste lado, ansiando que me abraces porque eu não sei fazer outra coisa que não esperar pelo teu abraço. Nasceste-me. Que Deus me ajude e ajude os que na minha casa, na minha vida, entendem que quando olham para nós, só a ti te podem ver…◄

 

  • Publicado no jornal PALAVRA edição de janeiro 2021