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No caos há uma ordem…

Tenho pensado no caos dos nossos últimos tempos, na desordem que estes dias encerram, nesta sensação de imprevisibilidade tão imposta.
…Nas movimentações contraditórias de uns que se aglomeram e de outros que se isolam; nos que correm e nos que já não têm como andar, nos que cuidam e naqueles que são corpos de cuidados.
Tenho pensado nas longas horas de medos silenciosos e nas também longas horas de medos escutados. De uns que tiveram muita gente por perto e de outros que sofreram sozinhos…Nos que conseguiram vencer a batalha e nos que viram aqui a sua hora de partir.
São dias de caos, de tantas contradições, de movimentos inversos, de lutas cansadas.
Mas há múltiplos fios que ligam peças dentro deste caos.
Eu estou ligada a ti, porque tu estas ligada ao outro que pertence a mim.
Que sensação tão inadjetivável esta que de repente nos invade: estamos realmente ligados pelo nosso lado mais físico e não só.
É o corpo que nos lança para esta batalha, preciso “dele” para me proteger, é por “ele” que cuido de quem precisa e é também por “ele” que me exponho e me contagio. É no corpo que ficam as marcas, é no corpo que surgem as dores e o sofrimento, é com ele que desafio as horas infinitas em que me dedico aos outros.
E é aqui que surge a ordem na desordem. Parece que há elos invisíveis que nos ligam, que nos fazem não desarmar, mesmo quando o fim não era nada do que queríamos. Há um sentido maior que nos provoca para a ação, que nos faz continuar na batalha, que nos prolonga as forças e nos proteja na defesa da vida. É a ordem na desordem, que me faz acudir os que precisam, que me recompõe no meio de tantas feridas, que me faz ir ao encontro mesmo sabendo que haverá muitos fins que nos sabem a amargo.
É este corpo, combativo e cansado, que parece ser mais do que uma simples “questão” física, é “ele” que se amplia, nas longas horas de luta, e que dá ordem à desordem! Desconfio que será o rosto mais perfeito da humanidade. Talvez seja este o real sentido do amor [ao próximo].◄

 

  • Publicada no jornal PALAVRA edição de janeiro