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O ano da marmota

Como em todos os finais de ano, naquele momento em que estamos a recolher as passas ou a brindar com champanhe, ou mesmo sentados no sofá a olhar para a televisão depois da meia-noite, pensamos muitas vezes no ano que passou em forma de autoavaliação: coisas que queremos mudar, objetivos que queremos cumprir, envoltos em alegria, ansiedade, medo ou esperança.
Eu tive a sensação que 2020 foi um ano que pareceu um dia à medida do filme, Feitiço do Tempo, em que o personagem principal fica preso no famoso dia da marmota. Este dia celebra-se a 2 de fevereiro nos Estados Unidos e o mito é o seguinte: se o animal sair da toca por causa do tempo nublado, o inverno terminará cedo. Já se o dia estiver ensolarado e o animal se assustar com a própria sombra e voltar para a toca, o inverno ainda fica por mais seis semanas. Para quem não viu ou não recorda o enredo do filme, o autor principal acorda às 6:00 da manhã no dia da marmota e revive cada detalhe exatamente igual numa pequena aldeia americana. Revive o mesmo dia tantas vezes que acaba por conhecer o passado das pessoas que o rodeiam, antecipar-se aos seus desejos e desgraças, o que o faz mudar de ser um homem egoísta a ser um homem amado, que ajuda a todos, surpreendendo todos à sua volta devido ao conhecimento profundo que desenvolve acerca do seu contexto que se repete todos os dias.
A relação entre este filme e o ano que passou de 2020 é que todos nós ficámos presos, durante já quase um ano, a um estado de emergência e a uma condição biomédica e biopolítica que nos ‘prendeu em casa’ da qual todos nós desejamos sair. Esta crise obriga-nos a aturarmo-nos a nós mesmos e aos outros que nos são mais próximos e isso pode ser um desafio, apercebemo-nos com mais facilidade dos automatismos da nossa personalidade, dos ciclos viciosos que acontecem dentro de nós, das emoções viciantes, da ‘jaula’ que são as relações com os outros que fazem parte da nossa vida de todos os dias. Por outro lado, dá-nos a oportunidade de passar tempo de qualidade com a nossa família ou com quem quer que seja que nos calhou passar o tempo durante estes confinamentos, tentando ao máximo fazer com que haja coerção e um clima de bem-estar, que nem sempre é fácil, modelando as nossas atitudes, gestos, ações, expetando que a nossa mudança nos propicie paz no ambiente em que vivemos. Por vezes saímo-nos bem, outras nem por isso, ou talvez estejamos tão envoltos em nós que nem em confinamento tenhamos a calmaria de parar e pensar naquilo que podemos mudar dentro do nosso pequeno contexto. Uma coisa é certa, agora não temos para onde fugir ainda que haja sempre a possibilidade de fugirmos de nós mesmos e dessa forma vivermos o dia da marmota sem que nada mude. Afinal esticar-nos um pouco dá trabalho, as preocupações e ansiedades tomam conta de nós e entendo que ocupem toda a nossa atenção analítica.
Que aceitemos os automatismos da nossa personalidade que nos são inevitáveis e que possamos dar diferentes respostas às mesmas situações para que alguma coisa mude à nossa volta, se é o caso. Afinal todos vivemos num ciclo e por mais voltas que dermos na nossa vida teremos sempre um contexto ao qual nos teremos de habituar, portanto esse sentimento que nos saltita tantas vezes dentro de nós é para ficar, o que muda é a resposta que lhe damos e quando, pois, se é para mudar e transformar tem que ser agora não podemos deixar para amanhã ou para a semana.
Que os meios de comunicação como o Facebook e Instagram não nos consumam, que os utilizemos com moderação, digo-o porque são uma tentação quando somos obrigados a ficar tanto tempo encerrados em casa. As nossas experiências são importantes e o tempo passa demasiado rápido, quanto mais em frente ao ecrã, mais dessincronizado nos parece.◄

 

  • Publicado no jornal PALAVRA edição de janeiro 2021