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O Homem construtor de paisagens

O homem, desde que se tornou sedentário, não mais parou de construir paisagens, adaptando e dominando a natureza aos seus interesses e formas de vida: desmatou, semeou, criou espaços para pastar e guardar o seu gado, construiu casas e povoados, fortificações defensivas, monumentos funerários, caminhos, estradas, cidades e outras obras próprias das grandes civilizações que, entretanto, foram aparecendo.
A natureza é má para o homem porque não é organizada – é caótica. Esta era uma das ideias que o Arquiteto Gonçalo Ribeiro Telles usava quase sempre quando iniciava uma das suas primeiras aulas a uma turma, ou numa palestra, para introduzir o tema da “construção e ordenamento da paisagem”.
E é assim de facto. Se abandonarmos um terreno e não o tratarmos, rapidamente tudo o que estava ordenado é tomado pela natureza que o invade e lhe introduz o caos.
Por isso, para ordenar a natureza e construir as paisagens uteis ao homem, há que saber desmatar, desbastar, podar, arranjar e organizar esse caos, ordenando os espaços para as culturas, para as pastagens, para os poisios, para a circulação da água e sua correta captação em condições equilibradas abrindo poços e noras, fazendo represas e barragens, mantendo no entanto, e sempre, as necessárias defesas como a compartimentação, a manutenção de sebes naturais, linhas de água, ribeiras e rios, alinhamentos arbóreos, charcas naturais, muros de pedra, portos e pontões de passagem das ribeiras, garantindo que os leitos de cheia não sejam ocupados com qualquer tipo de construção, defendendo os solos mais ricos e controlando a erosão e, naturalmente, escolhendo os melhores lugares para a agricultura e a pecuária. Ainda, e finalmente, saber escolher os melhores locais para construir as casas, as cidades e os equipamentos necessários à complexa vida humana. A salvaguarda da biodiversidade, mantendo para isso corredores ecológicos, são fundamentais para a sobrevivência da vida selvagem, que vai ajudar a que todo este sistema funcione. É importantíssimo garantir os sistemas naturais como a polinização, contrariando os processos que conduzem à extinção das espécies animais e vegetais. Todos estes elos são preciosos para manter as cadeias ecológicas que sustentam o complexo conjunto da paisagem.
O homem, ao longo destes cerca de 10.000 anos em que tem vindo a construir paisagens, tem tido, apesar de tudo, algum cuidado no equilíbrio com que o tem feito. Construiu engenhosamente os seus modelos, recorrendo à engenharia para construir grandes obras de arte como portos e pontes, desviando cursos de água quando necessário para fazer barragens, autoestradas, caminhos de ferro, aglomerados urbanos ou zonas industriais. Tem também, sabiamente, conseguido extrair equilibradamente os recursos naturais necessários à complexa vida que temos como minérios, metais e terras raras, combustíveis fosseis e outros recursos naturais necessários à sua sobrevivência e desenvolvimento.
Porém, neste momento, estamos a ultrapassar todos limites. Já não conseguimos controlar a poluição nem os resíduos industriais, abusamos no consumo de energias, construímos sem regras, agricultamos tudo e de qualquer maneira, sem qualquer respeito ou preocupação com a natureza e com os seus recursos.
Se até aqui o homem controlou e ordenou a natureza em seu benefício, neste momento estamos a destruir de qualquer maneira sem pensar no futuro. Consume-se mais do que se consegue produzir. Não se respeitam as válvulas de escape que a natureza necessita sempre que há enxurradas, cheias, trovoadas e ciclones, tufões, incêndios e outros fenómenos atmosféricos naturais. Estamos a poluir os rios, mares, oceanos e o ar que respiramos. Estamos a secar cursos e outras reservas de água, mares interiores e outros recursos da natureza e biodiversidade como as grandes matas e selvas. Estamos também a construir uma enorme nuvem de sucata de restos de naves espaciais e satélites, estações orbitais e outros resíduos poluentes que orbitam descontroladamente em torno do planeta.
A ordem geral já não é o benefício da comunidade, mas os interesses particulares e o lucro a qualquer custo para uma minoria de grandes empresas e empresários que dominam a economia e que não estão minimamente preocupados com o futuro do planeta. O que lhes interessa é o lucro rápido e fácil, produzindo a baixo custo produtos apenas para abastecer o consumo desenfreado e desnecessário, explorando para isso as classes mais desfavorecidas, criando uma nova escravatura disfarçada e escondida, sem respeitar os recursos do planeta. Passamos da fase de ordenar e construir paisagens, para a fase da sua destruição sem qualquer limite, com intervenções sem sustentabilidade que nos vão conduzir ao caos, à ruína e possivelmente ao desaparecimento da espécie.
O mundo não irá desaparecer. Sem o homem, o planeta saberá rapidamente regenerar-se para tudo começar de novo. Como sempre tem sido até aqui e como se verificou nos anos da pandemia em que o alívio sobre os recursos e sobre o consumismo teve efeitos muito rápidos.
Como disse Claude Levis Strauss, “o mundo começou sem o homem, e sem ele há de acabar”. E disse-o numa altura em que os problemas apenas se adivinhavam. Agora já existem, mesmo, de facto.
Estes problemas e desafios vão ser objeto de discussão e reflexão na 23º edição dos “Encontros de Monsaraz”, que a ADIM vau organizar nos próximos dias 15 e 16 de Outubro na Igreja de Santiago em Monsaraz. Serão dois dias em que o tema será a natureza e o homem, esse construtor de paisagens.◄

  • Publicado no Jornal PALAVRA, edição de outubro 2022

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