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O meu reportório de histórias

Já várias vezes o disse, gosto de histórias; histórias reais, fictícias, reais e fictícias, unicamente histórias. Gosto de lendas, provérbios e lengalengas. Gosto da sabedoria popular, aquela que é baseada na experiência de vida, longe dos púlpitos e das salas faustuosas das universidades, onde por vezes a arrogância intelectual abunda e a humildade científica é escassa. Obviamente que não desdenho da ciência, nem nunca o poderia fazer, até porque ela é essencial à humanidade e rege o contexto onde me movo diariamente. Mas uma história é uma história, e nos dias em que me canso da exigência implacável da ciência, só uma história me reconforta.
No repertório que fui construindo ao longo da minha vida, a imagem dos meus avós, dos meus pais, dos meus tios, dos livros coloridos de capa dura e talvez de algum professor, estão muito presentes como fornecedores de histórias. As matanças do porco na Vendinha, os serões à lareira na casa do Ti Manel e da Ti Mari Vitória, os lanches na casa da prima Morais, eram verdadeiros momentos de fabricações de histórias onde tudo era possível. Histórias multifacetadas, divertidas, tristes, bizarras ou simplesmente tontas. Histórias intemporais que se assumem como componentes vivas do meu espólio afetivo e que eu procuro preservar com carinho.
No momento em que deixo os meus dedos correr livremente pelas teclas do computador, procurando traduzir em palavras os pensamentos que me assolam, e tendo em conta o que anteriormente referi, encontro a razão pela qual os acontecimentos dos últimos dias me fizeram recordar uma história.
Estive presente numa cerimónia de comemoração dos 160 anos de uma instituição do concelho de Reguengos de Monsaraz. Cerimónia planeada e gerida com muita dignidade, sóbria e simples, tal como a própria instituição. A minha ligação a esta Casa tem mais de um quarto de século, e o que conheço da sua essência, missão e funcionamento, faz-me nutrir por ela um profundo respeito e consideração. De raízes ancoradas no cristianismo, desenvolve a sua ação na esfera social, procurando atender genericamente às catorze obras de misericórdia, sete corporais e sete espirituais, fazendo-o muitas vezes no silêncio e discrição de quem está ao serviço do outro. Não é uma instituição perfeita nem nunca será, porque é gerida pelos Homens no sentido universal da palavra, mas procura que a sua atuação seja balizada por valores superiores de inspiração cristã.
Para assinalar de forma mais efusiva os 160 anos de existência, a instituição, além do discurso de alguns convidados e dos momentos musicais, decidiu atribuir o título de grande benfeitor, benfeitor e benemérito, a determinados particulares, nomeadamente pessoas que integraram os corpos sociais, associações e entidades, de acordo com doações ou serviços que estes prestaram gratuitamente. Do mesmo modo, decidiu homenagear um conjunto de funcionários, alguns com vários anos de casa e outros já aposentados, enaltecendo assim a sua dedicação e empenho, sendo que algumas das homenagens foram realizadas a título póstumo.
Se tudo isto é esperável num contexto de celebração, já não o é, a ausência dos agraciados. Chegado o momento da homenagem, o nome dos escolhidos foi pronunciado em voz alta, ao mesmo tempo que era projetado na grande tela que preenchia o fundo do palco. Foram vários os que se fizeram notar pela sua ausência, a qual foi habilmente dissimulada pela elegante perspicácia de quem apresentava o evento, passando rapidamente ao homenageado seguinte quando o anterior não estava nem se fazia representar.
E que relação tem tudo isto com o meu espólio de histórias, particularmente com aquela que se evidenciou nas minhas recordações?
Quando à noite fazia o balanço do dia, prática que me carateriza há vários anos, recordei a história do velho, do rapaz e do burro, enquanto revia a cerimónia das comemorações, concretamente, o momento das homenagens. Sem grande esforço, dei por mim a fazer uma analogia com o que tinha acontecido.
Se a instituição reconhece beneméritos ou benfeitores – não se percebe porquê, só fizeram doações porque tinham muito ou porque não tinham a quem deixar as coisas, não fizeram mais que a sua obrigação.
Se a instituição não reconhece beneméritos ou benfeitores – vejam lá, nem agradecem o que lhe dão. Tanto que a pessoa deu da sua vida e nem isso reconhecem.
Se homenageia funcionários no ativo – isto agora é para quê? Mais-valia que me dessem mais ordenado ou mais horas de folga. Nem lá vou.
Se não homenageia funcionários no ativo – tanto que eu trabalho, vejam lá que nem se lembraram de me oferecer uma florinha. Ficava bem.
Se homenageia aposentados – quando lá andei ninguém se lembrou, nem uma vez pus baixa. Agora é que se lembram de vir com homenagens. Nem lá vou.
Se não homenageia aposentados – tantos anos que lá estive, ficava bem um agradecimento, pelo menos sabia que se lembravam de mim. Tinha sido bonito.
Imersa nestas analogias, ri de mim mesma e pensei na complexidade do comportamento humano. A velha história encheu-se de sentido e a sabedoria popular fez-se ouvir, recordando que, independentemente do que possamos fazer ou dizer, haverá sempre alguém que critique.
Uma Santa Páscoa!

  • Publicado no Jornal PALAVRA, edição de abril 2022