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O Santo do lugar único

Existem pessoas e lugares, juntos são vida. Existem lugares vazios e pessoas cheias de lugares. Existem pessoas vazias por dentro, por estarem fora cheias de tantos lugares ao mesmo tempo. Ser santo hoje, é estar, de cada vez que se vive, apenas nesse lugar de vida.
Quem o diz é o Padre Rui Santiago, Redentorista, na sua lindíssima forma de falar. Diz-nos ele, entre muitas coisas belíssimas, que o desafio da santidade para os nossos dias, para os dias de hoje, plenos de liberdade e fora do jugo da opressão e do cárcere, dias de Deus libertador em nós, é que cada um consiga estar apenas num lugar, num momento e viver esse momento, verdadeiramente. Em pleno tempo de férias, onde cada um anseia por descansar do trabalho, voltar à família, desligar os lugares que habitou ao longo do ano, é bom que possamos avaliar a nossa capacidade real e efetiva de “desligar da corrente de lugares” a que nos deixamos prender ao longo do ano. Queremos ser santos, queremos ser livres…, só não sei se conseguimos decidir…
Pois bem. Quero ser Santo, toda a minha vida o procurei ser. Mas essa demanda fez de mim um aprendiz de santidade demasiado ocupado com o intuito. A vida dos que querem ser santos hoje, anda demasiado preenchida com tarefas práticas e leituras teóricas. A matéria não é complicada, a vida é que complica o estudo, ou melhor, de tão livres que arrogamos ser, estamos presos, prisioneiros nessa forma de vida, nessa incapacidade de viver com calma, de descansar, por exemplo, de fazer parar tudo, pelo tempo que seja necessário, justo, adequado, essencial.
A velocidade com que se vive é uma velocidade que se impregnou nos dias. Andamos embalados e já não conseguimos travar, não temos coragem. Não temos coragem de dizer basta, de parar um pouco, pareceria mal querer parar quando nos damos ao luxo de ter uma vida plena. Parar é para os outros, eu, que tenho sempre muito que fazer, não posso parar, nem preguiçar, não dá, não tenho tempo. Não posso, estou preso a uma rotina, a um conjunto de obrigações. Sou muito livre, tão livre que estou condenado a não conseguir soltar-me desse rede de lugares, ligações, relações imediatas e ocasiões importantes. Tudo é importante, tudo é urgente… menos eu… não consigo parar por mim.
Diz ainda o Padre Rui, que nos primórdios da Igreja, o milagre da santidade era bem atestado junto dos mais “Santos”, pela sua capacidade de bilocação, ou seja, esses Santos, à séria, conseguiam estar num lugar e surgir noutro, em simultâneo. Milagre. Coisa de Santo. Pois a vida hoje coloca-nos todos os dias, muitas vezes, em inúmeros lugares em cada momento. Estamos presencialmente a ocupar um lugar, mas estamos conectados a muitos outros. Estamos e não estamos no aqui e no agora. Estamos a viver a nossa vida em fragmentos e passagens consoante temos rede, temos luz, temos som, temos bateria, temos aspeto, temos espaço, temos alcance, temos projeção. Estamos num lugar, mas não estamos mais ali. Não vivemos ali aquele precioso momento de estar apenas num lugar.
O milagre hoje, o desafio para se ser Santo hoje, é jogar fora toda esta habilidade de estar ligado a reuniões, conversas, encontros, apresentações, meetings, lançamentos, partilhas, fóruns, estados, perfis…tudo ao mesmo tempo. Somos apenas um e teremos que ser Santos na capacidade de viver um lugar de cada vez. Não queremos, não poderemos querer ser bilocados, queremos apenas colocar o nosso “eu” em cada momento que estejamos a viver. Não consegues? Então estás de volta ao Egipto e Deus nunca te poderá libertar assim…◄