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O último dia do ano

O ano mal tinha começado e já ia torto. O António deitava contas à vida. A festarola do fim do ano tinha sido bonita, tinha sim senhor, muita comida, muita música, e muito vinho. E esse é que foi o problema…
Os primos da herdade tinham chegado logo a seguir ao almoço, o velho de capote castanho a cabeça pequena demais para o resto da compleição enterrada numa sumptuosa pele de raposa, as suíças bem delineadas até quase tocar no queixo recolhido, via-se bem que tinha acabado de sair da cadeira do barbeiro. A Tia vinha de braço dado com o marido, trazia o cabelo ralo armado em laca numa mise impossível e os lábios pintados de vermelho sangue já a estalar nos cantos por força das rugas e da camada exagerada de tinta. Entraram enfunados, a bater o salto do sapato como quem anuncia o início de uma peça de teatro. E não era muito diferente não. Ele de botas caneleiras cardadas e ensebadas de fazer inveja a qualquer um, ela de sapato de verniz abotoado com botão de perola e de salto de oito centímetros pelo menos. Os sapatos visivelmente em sofrimento pelos 80kgs da madame. Fizeram-se os cumprimentos, e prestaram-se as devidas homenagens aos que tinham partido este ano como o avô Marcelino ou o tio Jacinto amigos de infância e que foram a enterrar com uma semana de diferença. Uma ou outra lágrima, enfim, fez-se o que havia a ser feito, e era tempo de começar as festividades. O último dia do ano desde o principio do mundo, ou quase, era festejado com pompa e circunstância pela família. Este ano calhara ao António, o mais novo de três filhos, casado com a Marta e sem filhos por opção de Deus nosso senhor como gostavam de dizer. O António vivia num apartamento de três assoalhadas, como é óbvio sem espaço suficiente para o ajuntamento da praxe. Encheu-se de coragem e pediu o casão ao primo Rodrigues, lavrador da praça que vivia com a governanta no monte mas mantinha o palacete da vila sempre em ordem não fizesse falta. O Palacete era uma moradia de dois andares, de estilo moderno com janelas e portas de um alumínio castanho e postigos envidraçados, que mais pareciam as portas de um jazigo, toda pintada de rosa claro. Coisa fina pensava o António antes de bater à porta enquanto puxava a boina para trás. Ao domingo o primo Rodrigues vinha sempre à missa, era pois a ocasião. Entrou, pediu, ouviu a saiu contente da vida. O Casão estava cedido e havia lenha à descrição para aquecer a noite. O primo Rodrigues deu-lhe a chave porque as crises de espondilose eram cada vez maiores e não ia arriscar saída em noite tão fria.
Os primos da herdade chegaram cedo para marcar lugar perto da mesa dos comes. Traziam num cesto uma perua corada, um pão redondo amassado pela prima, meia dúzia de queijinhos de cabra ainda mornos e duas garrafas da branquinha de peras e maçãs que o primo fazia com preceito num alambique de cobre.
Tinham dois filhos, um estudante já com namorada ao pescoço, tinha ido para o norte conhecer os sogros. O outro mais velho, moço forcado dispensava jantares de família e juntava-se com os companheiros. Para este era todos os dias fim do ano.
Depois veio a avó Marianita, viúva recente fora um castigo para a arrancar de casa e dos mantos negros. Lá veio pela mão de uma vizinha qua veio entregar, contrariada, a disparar cortesias para tudo e para todos aqui e acolá a carpir a sua dor não fosse alguém mais descuidado pensar que ali estava de vontade.
Os pais do António vieram à beira do anoitecer, traziam o porta bagagens do carro atulhado de coisas de necessidade. Lombos de porco assados, um paio para encetar, farinheiras para assar na brasa e até um cesto de ovos e um molhinho de coentros não vá a madrugada pedir uma açorda.
A mãe entrou em casa beijou o filho e rosnou um boa noite para a nora. Jamais se conformaria com a escolha de Nosso Senhor para o vazio do ninho do filho quando apostava uma mão que a vontade era da lambisgoia da nora. O pai fez a sua entrada como sempre gestos largos, voz bem entoada e um sorriso de iluminar a noite escura.
Chegaram depois os irmãos, o Joaquim filho do meio, jogador da bola de renome ali nas redondezas, passo gingão, cabelo da moda, calça justa e camisa cintada e arregaçada. Desejava-se sorte aos botões da camisa para resistirem ao simples ato do homem se sentar. Vinha com a nova namorada, uma loira platinada que ele tirara de um chapéu sabe-se lá onde; e o Lininho, o mais velho, farmacêutico de profissão e pai de quatro crianças maravilhosas. O Lininho era calado, metido consigo mesmo e deixava todas as lérias para a Isabel, a mulher. A Isabel era uma rapariga bonita mas cansada. Vinha já com o seu traje de passagem de ano sujo no peito. A mais nova tinha acabado de vomitar e vinha ao colo em prantos, os outros três com pouco mais de diferença de um ano entre cada um lá vinham os gritos como sempre, a Gracinha arrastava o Leonel pelo cabelo e o Leonel pontapeava o Frederico que vinha agarrado à saia de veludo da mãe a gritar de dor.
A Marylin do Joaquim trazia uma travessa de arroz doce que entregou nas mãos da dona da casa, e o Lininho e a Isabel pediram desculpa mas não tinham conseguido fazer nada. O costume portanto.
A mesa estava finalmente posta e era uma beleza de se ver, a fartura e diversidade! A noite foi entrando e as vozes não tardaram a embalar. O primo João da herdade começou cantar e os outros juntaram-se-lhe em coro. A música une as pessoas. Era bonito de e ver e ouvir.
A meia-noite chegou e houve abraços e beijos e choro e gritos e brindes, mais do que tudo houve brindes. À saúde dos presentes, à saudade dos ausentes, ao novo ano, enfim brindou-se e re-brindou-se.
Foi uma bela festarola, oh se foi! Pena ter acabado assim. O primo João chamou a namorada do Joaquim de Messalina, e isso foi a última coisa que se consegue contar. O Joaquim partiu o nariz do primo João, a prima gritava que o homem se lhe esvaia em sangue. As crianças que já dormitavam acordaram em prantos. A Isabel desesperada virou as costas e deixou o Lininho literalmente com os meninos nos braços, todos os quatro, a mãe disse à Marta que tudo era culpa dela e o pai chorava copiosamente abraçado à avó. O primeiro bêbedo, a segunda genuinamente triste.
Verdade que foi animado. Mas agora havia cadeiras partidas, estilhaços de copos e bocados de carne espalhados pelo casão imaculadamente limpo que o primo Rodrigues tinha emprestado.
Era hora de varrer os cacos. Começaria pelo casão que tinha o dia todo pela frente, depois logo passaria para a casa, que essa tinha o ano todo para compor. ◄

 

  • Publicado no jornal PALAVRA edição de janeiro 2021