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Os 100 anos do Partido Comunista Português

“A primeira coisa a dizer ao Partido Comunista Português não é parabéns: é obrigado. O ser humano é ingrato e a variante portuguesa é conhecida por ter horror à gratidão (e ao elogio) em todas as formas, mas gostava que os mais ingratos dessem uma vista de olhos pelas coisas que o PCP defende e fizesse uma lista daquelas com as quais não concorda. Note-se que muitas das coisas valiosas pelas quais se bate o PCP nós já temos (o SNS, a Constituição, a escola pública). Note-se também que o PCP contribuiu muito para que as tivéssemos — algumas delas, importantíssimas, por ter sido o primeiro a defendê-las.
Quando penso nos comunistas portugueses, penso em seriedade e honestidade, penso em patriotismo e, sobretudo, penso na defesa dos portugueses mais indefesos: os mais pobres, os mais fracos, os mais injustiçados, os que mais precisam de quem lute e fale por eles. Penso também em coragem e teimosia: a coragem de ir contra o que cai bem, de ir contra as modas, de ir contra o conforto da elite política, de ir contra o que aconselham as sondagens de opinião. (…)
O PCP conseguiu o que fez — o que já fez e está agora a fazer, repito — porque trabalhou, com afinco, lealdade, sacrifício e sentido de missão, para ajudar quem precisava — e continua a precisar — de ajuda. De nenhum outro partido português se pode dizer isto. Que dure mais cem anos, para bem de todos nós.”
O autor dos três parágrafos acima é Miguel Esteves Cardoso, que os escreveu no “Público” de 6 de março, o dia em que se completaram cem anos de vida do PCP. Miguel Esteves Cardoso não é comunista nem tão pouco se pode considerar um cidadão de esquerda. Mas teve o mérito intelectual de conseguir distanciar as suas raízes e práticas ideológicas e reconhecer a enorme importância que este partido teve e tem na construção do Portugal democrático. No meio de tanta intolerância, de tanta ingratidão que enormes faixas da população portuguesa dedicam ao PCP, é uma enorme satisfação que uma personalidade como Miguel Esteves Cardoso, de opções ideológicas tão distantes do comunismo, tenha tido o arrojo de escrever a página mais elogiosa no centenário do partido. Porque, para muitas vozes com eco na comunicação social, foi criticada até a celebração. A colocação de bandeiras do PCP na Av. Da Liberdade, em Lisboa, junto ao hotel Vitória, uma das sedes do partido, e noutras localidades do país, suscitou reações anti-democráticas, com argumentos que já se julgavam fora de hábito da população portuguesa. O presidente da Câmara Municipal de Gondomar, o socialista Marco Martins, insurgiu-se contra as bandeiras do PCP numa avenida da cidade nortenha dizendo, e cito de memória, que aquilo que uns embelezam, outros estragam visualmente com bandeiras. Vai mesmo mais longe, afirmando que infelizmente a lei protege estes comportamentos e que o PCP pensa que pode fazer tudo. Não vou referir mais declarações e comportamentos de trogloditas que encheram as redes sociais e a comunicação social com verdadeiros atentados de opinião sobre o simples comemorar de um centenário. Muito mal vai a democracia portuguesa quando o partido que mais lutou pelo estabelecimento da liberdade e de todos os direitos cívicos dos portugueses seja agora atacado de forma tão vil. Parece que há setores que continuam a não perdoar que se fale em defesa dos trabalhadores e do povo. E quando o ataque mais idiota e mais estúpido vem de um presidente de câmara que se diz socialista, não são necessários mais comentários. O que vale é que, fora do partido, ainda há algumas pessoas como Esteves Cardoso, que são verdadeiros democratas e reconhecem as lutas e os sacrifícios que foi necessário sofrer ao longo de um século.

A REESCRITA DA HISTÓRIA – I
– Marcelino da Mata, o militar mais condecorado do exército português no tempo da guerra colonial, morreu há umas semanas e a direita mais revanchista entendeu que devia ter tido honras de estado por ser um herói de guerra.
– Mamadou Ba, ativista antirracismo repudiou a intenção. Chamou a Marcelino da Mata criminoso de guerra. Em troca, grupos de direita e extrema-direita lançaram uma petição que pedia a deportação de Mamadou Ba.
– Mamadou Ba é cidadão português, como mais cerca de dez milhões de compatriotas. Como poderia ser deportado do seu próprio país? Por ser negro ou por ter direito a expressar a sua opinião?
– Cerca de trinta mil portugueses assinaram a petição! Para um país que faz manifestações a gritar que “não somos racistas” e depois exige a deportação de um cidadão só por acusar outros de racistas, não vamos mal.
– Ascenso Simões, antigo governante e atual deputado do PS disse que o Padrão dos Descobrimentos devia ser demolido porque glorifica um período negro da nossa história. Para além de ser uma opinião idiota e/ou estúpida, é só uma opinião e quem a proferiu tem direito a ela.
– Umas plantas que, em 1961, foram colocadas na Praça do Império, em Lisboa, representando os brasões de cada um dos distritos de Portugal mais as províncias ultramarinas, e que estão, há vários anos, muito degradadas, estão a ser motivo de indignação de várias personalidades da direita portuguesa, com acusações de ditadura das elites de esquerda. Uma proposta da Câmara Municipal de Lisboa, no contexto de um restauro do espaço da praça envolvente, de arrancar as plantas e preservar os brasões em calçada portuguesa caiu que nem uma bomba, com várias intervenções públicas, abaixo-assinados, petições, acusando a esquerda de querer apagar e reescrever a História, e de não respeitar a memória dos portugueses.
A meia dúzia de factos assinalados acima são só os mais recentes de uma verdadeira campanha, não sei se orquestrada ou espontânea, que nos últimos anos tem caracterizado todas as discussões ou tomadas de posição que envolvam aspetos relacionados com racismo, escravatura ou descobrimentos portugueses. E, em primeiro lugar, deve repetir-se que toda a gente tem direito a opiniões estúpidas. E tem havido tantas, ultimamente! O que parece é existir uma intenção velada de lembrar apenas os feitos ditos heroicos, ignorando os factos que, de alguma forma podem pôr em causa a tão desejada glória pátria. E esse é o principal erro destes pretensos historiadores: considerarem a História como um veículo para legitimar a alegada superioridade da nação que, não acontecendo no presente, se pretende que tenha existido no passado. Ora a História não serve para legitimar pretensas grandezas e misérias passadas, nem para hierarquizar nações. A História não apaga, não cauciona, não condena. A História não pode ser reescrita de acordo com os interesses ideológicos, porque a História nunca está definitivamente escrita, dependendo das investigações que vão sendo feitas, dos estudos e análises científicas que os historiadores vão cometendo. A História limita-se a relatar a forma como o Homem viveu e se relacionou com o seu semelhante neste planeta onde lhe foi dado viver. Voltarei a este tema no texto do próximo mês.◄

 

  • Publicado no Jornal PALAVRA, edição de março 2021