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QATAR

Ando há sensivelmente quatro ou cinco anos a tentar, de maneira proativa, aprender a responder à infame “então diz lá o que é um fora de jogo”; continuo a esforçar-me por não deixar a atenção dispersar-se do ecrã onde corre um jogo da bola para o ecrã pequenino onde correm informações, traumas, piadas, ensaios e dissertações de quinze segundos; às vezes, até faço por participar numa conversa futebolística, com uma ou outra interjeição, preferencialmente segura e que não abra portas a grandes debates que não saberei ter dali em diante.
Faço-o porque vejo no futebol muitas faces da nossa humanidade, e porque prezo muito manifestações da nossa humanidade. Reparem: não percebo nada disto, mas reconheço a inquestionável beleza do ato de sustermos a respiração nos segundos antes de um golo acontecer, de celebrarmos com os desconhecidos nos cafés as vitórias que assacámos, ou de armarmos uma sinfonia estranha pelas ruas das nossas terras quando um jogo importante termina em grande.
Em suma, aprendi a aceitar que talvez “meia dúzia de pessoas a correr atrás de uma bola” fosse uma visão redutora das coisas: mas, precisamente por isso, aprendi a exigir mais desse mundo que tantas coisas boas sabemos trazer às pessoas. Desde logo, exigir que a humanidade que o futebol carrega não seja seletiva nem temporária; que não seja permissiva perante demonstrações, explícitas ou não, de homofobia, misoginia, ou de generalizado desrespeito pelos mais básicos direitos humanos; que não tenha medo de se posicionar e que compreenda que o não posicionamento fala por si só e ouve-se em todo o lado.
Corre agora o mundial no Qatar e todos já estaremos, nesta fase, mais ou menos familiarizados com as violações dos direitos humanos que lá ocorrem: a festa continua, e ninguém gosta de uma festa arruinada, mas é também aí que se pede ao futebol que faça e seja melhor. Seja no Qatar ou noutro lado qualquer (recorde-se que, o ano passado, temas semelhantes foram levantados a propósito de um certo Alemanha-Hungria, onde a UEFA, pressionada pelo governo húngaro que havia então aprovado lei de proibição de conteúdos LGBT nas escolas, proibiu que um estádio fosse iluminado com meia dúzia de cores – a ultraje!), não pode haver lugar a permissões e cedências e silêncios e descompromissos. Porque o futebol, por se entender além-política ou além-fronteiras, tem de o ser verdadeiramente. E só há uma forma de o ser verdadeiramente: não vergando a benesses financeiras em detrimento do respeito, pleno, pela humanidade.◄

  • Publicado no Jornal PALAVRA, edição de dezembro 2022

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