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Reguengos, Lisboa, Barcelona e Praga: 4 cidades num só coração

Com 24 anos, em 2018, Ana Teresa Correia aterrou em Praga, na República Checa. O primeiro contacto foi na passagem do ano e foi amor à primeira vista. Passado um mês voltou mas para ficar naquele que é num dos países mais centrais da Europa.

 

Reguengos de Monsaraz, Lisboa, Barcelona e Praga: são estas as quatro cidades pelas quais Ana Teresa já passou e onde viveu. A primeira viu-a nascer há 27 anos, onde esteve até à saída para a universidade.
Terminou a licenciatura em 2014 e o curso de eleição foi Antropologia. “Na adolescência começamos a ter outro tipo de problemas e começamos a sentir mais necessidade de ter o nosso espaço. E eu comecei a sentir-me assim e a ter dúvidas existenciais; a querer saber como a sociedade funciona. E tudo o que me satisfazia a nível de aprendizagem era algo que respondesse às minhas perguntas”, confessa.
Hoje, Antropologia é algo que leva consigo para onde quer que vá, sendo a “forma de ver o mundo e a perceção que tem das coisas”. E, com isso em mente, Ana Teresa defende que, mais do que nunca, esta área das ciências sociais faz falta na sociedade, uma vez que “há uma grande necessidade de mediadores culturais”, explica.
Por mediadores culturais, Ana Teresa refere-se a profissionais, como os antropólogos, que “já tenham algum background de enfermagem ou medicina e que possam acompanhar um refugiado ao hospital, mediando a situação entre ele [refugiado] e o médico”.
Tendo esta ideia claramente presente na sua vida, Ana Teresa embarcou para o mestrado em Antropologia Médica, em Barcelona, Espanha. “Barcelona abriu-me as portas”, confessa. Foi uma espécie de preparação para o que se seguiria em 2018.


“Acabei o Mestrado e conheci um rapaz, que era eslovaco, e que era meu namorado na altura. Viemos passar a passagem do ano a Praga… E eu disse-lhe que gostava de ficar aqui nesta cidade”, começa por relembrar. Vários eram os fatores que a direcionavam para Praga: estava prestes a terminar os estudos, na região da Catalunha existiam revoltas e manifestações sangrentas diariamente e não obtinha resposta do Instituto Camões (ao qual se candidatara com o objetivo de entrar no mercado de trabalho).
Além disso, em adição à existência de apenas 2% de desemprego, Ana Teresa considerava Praga parecida com Lisboa devido à calçada e às colinas existentes. Assim, percebeu que o local indicado para começar a sua experiência profissional era a capital da República Checa.
Um mês depois da passagem do ano, em fevereiro de 2018, chegou àquela que seria a sua nova cidade.
O primeiro mês da sua estadia em Praga foi passado num hostel, onde dividia o quarto com outras sete pessoas de todas as nacionalidades. Mas depois começou a “vida a sério”, afirma. Arranjou uma casa com um colega checo e um emprego num call center da Air France, na qual dava resposta a passageiros com os voos atrasados e/ou cancelados.
“Lembro-me de entrar no metro – a caminho do trabalho – e as pessoas parecerem todas muito tristes… O clima era horrível e estavam cerca de 14º negativos! As pessoas tinham um ar muito sisudo, muito pesado, e nem sequer olhavam para ninguém!”, recorda, enfatizando a cultura fria em que acabara de “entrar” e a sensação de “alienada” que a inundava.
“Em Espanha, por exemplo, uma vez estava no comboio e tinha um cartão comigo. Só que ou estava caducado ou eu não tinha validado o cartão, já nem sei. E o guarda veio ter comigo e disse-me que o cartão não era válido. E a pessoa à minha frente começou a defender-me com unhas e dentes”, recorda Ana Teresa, acrescentando que, no final da cena, o guarda acabou por ir embora, pedindo-lhe desculpa e dizendo que não havia problema.
Em contraste, a reguenguense afirma que “em Praga pode acontecer tudo. Podem fazer tudo à tua frente e ninguém te vai dizer nada; ninguém te vai acudir. As pessoas fingem que não veem”.
Três anos depois, Ana Teresa admite que já lida melhor com esta característica cultural. No entanto, reitera o problema do país: “É este o problema da República Checa: há falta de empatia. É grave. É não conseguirem entender que o outro está com um humor diferente. Não têm sensibilidade; parece que não sentem o outro… Atrever-me-ia a dizer que não têm compaixão”.
Mas, mesmo com alguns pontos negativos, havia sempre algo que a fazia continuar na capital checa. Mais tarde, outras oportunidades surgiram e, hoje, Ana Teresa trabalha no departamento de Recursos Humanos da Novartis uma empresa Suíça.


Os últimos três anos permitiram-lhe conhecer novos interesses e um desses foi o teatro: “Aqui comecei a sentir-me um bocadinho mais fechada, com mais dificuldade para falar com as pessoas e a sentir-me mais envergonhada… Até sentia um bocadinho de ansiedade social. E achei que o teatro [em português] seria uma boa ideia para ultrapassar esta barreira”.
Ana Teresa conseguiu desenvolver uma linguagem corporal mais tranquila, lidar com a ansiedade e reaprender a olhar as pessoas nos olhos. Além disso, teve ainda a oportunidade de conhecer brasileiros, cabo-verdianos, angolanos, franceses e polacos que, por gostarem tanto da língua portuguesa, também procuraram o teatro como um escape.
Além do teatro, também os kinos passaram a fazer parte da sua vida. Kinos são uma realidade diferente da portuguesa. São “cinemas com arquivos mais antigos. Os kinos mostram cinema independente e alternativo”, esclarece Ana Teresa. Rapidamente percebeu que é, também, um sítio onde pessoas mais jovens se encontram, num ambiente descontraído que lhes permite diminuir a solidão e conhecer novas pessoas.
Apesar de conseguir criar em si o hábito dos kinos, há hábitos que Ana Teresa não consegue ganhar. Um desses é cozinhar com óleo. “Os checos não cozinham com azeite, cozinham com óleo. E isto custava-me muito ao início porque fica tudo a cheirar mal. E ainda por cima o meu quarto está mesmo ao pé da cozinha”, conta.
No entanto, algo que conseguiu perceber sobre si é que é mais tolerante do que julgava inicialmente ser. “Tive que lhe dizer [ao colega de casa] para abrir a janela. E tive que falar diretamente com ele. Ao início ele não o fazia, mas depois viu que eu abria sempre a janela e aí começou a abri-la também. Não quer dizer que não me incomode, mas já consigo lidar um bocadinho com isso. Comecei a fechar os olhos a algumas coisas e a perceber que há coisas mais importantes”.As vivências e experiências de Ana Teresa têm sido constantes desde o dia em que deixou Portugal para trás. Desde sempre se lembra de querer viver no estrangeiro para se “conhecer” mais profundamente e perceber quem é a Ana Teresa num ambiente fora do habitual.
No entanto, passados três anos em Praga, surge a questão: “Voltar para Portugal está nos planos futuros?”.
Depois de refletir com a calma que Praga lhe tem trazido, afirma que “Portugal está num horizonte apenas a nível da reforma, pelo menos para já” e acrescenta que o país que a viu nascer já não é, na totalidade, a sua casa. “Portugal é a minha identidade, é a cultura que me formou e é um bocadinho a minha casa, mas já não ocupa tanto espaço nessa definição. Para mim casa já é outra coisa”, confessa.
E prontamente explica que ainda procura esta definição: “Ainda estou à procura… Mas acho que casa é o sítio onde tu consegues permanecer e onde te sentes bem… Até agora, para mim, tem sido difícil ficar em algum sítio. E acho que ainda estou à espera e à procura desse lugar. Quem sabe, até pode ser aqui em Praga!”, conclui Ana Teresa com a alegria típica da cultura portuguesa. ◄

  • Publicado no Jornal PALAVRA, edição de março 2021