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Senti necessidade de passar por aqui

Senti necessidade de passar por aqui, pela tua rua, pela tua porta, pela tua vida, pelo teu dia…
Senti necessidade de ver como estavas, de te ouvir, de saber se precisavas de alguma coisa…
Senti necessidade de me fazer presente, de me fazer participante, de não me afastar de ti…
Não me afastei, não me deixei levar pela dureza deste tempo, não me aconcheguei na indiferença, não me paralisou o tempo e o espaço divididos.
Não me ajeitei às desculpas, não me conformei com o medo.
Senti necessidade de passar por aqui. Pelo teu rosto vivo, pelo teu corpo que mexe, pelo teu coração que bate. Sem desculpas, sem angústias, sem medos.
Não me anularam a essência, não me mataram a vontade de te ver, não me resfriei, não deixei de te querer ver fisicamente. Talvez tu já não estejas igual, mas a minha força está renovada para ti e para todos os que precisarem.


Vou continuar a procurar estender-te a mão, perguntar-te o que precisas, antecipar as tuas necessidades, fazer te sentir único. Não vou contribuir para que as circunstâncias nos desviem, nos afastem, nos isolem, nos desgastem. Não vou…
Este é um tempo novo, sim, é! Mas não há razões para que este tempo finito nos transforme, nos mude a essência, nos substitua na verdade, nos retire a humanidade.
Não há razão para me refugiar no isolamento, não há razão para não te ligar, não há motivo para me afastar.
É preciso dizer isto para nós próprios, sem imposições, com compaixão e com sentido de amor ao próximo. É preciso continuar a dizer que senti necessidade de passar por ti.◄

 

  • Publicado no Jornal PALAVRA, edição de março 2021