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Ser no mundo

Neste reinício de ano para muitos e para tantas dinâmicas: escola, emprego, catequese, etc. importa refletir, seriamente, sobre o nosso lugar no mundo.
Os últimos acontecimentos, de dimensões mundiais, “empurra-nos” para uma certa análise do que somos nos nossos grupos e comunidades. Se não o fizermos, é mau. Significa que os acontecimentos não nos marcam. Na realidade tudo compete para a perceção desta ideia de “ser no mundo”. Os acontecimentos com impacto mundial, as redes sociais, a livre circulação de pessoas e bens, os prémios mundiais, as catástrofes globais. Tudo nos direciona para esta ideia de que somos uns com os outros, mesmo antes de sermos – tratando-se de uma pré-existência, já somos num mundo global. Estamos inteiramente ligados a múltiplas e infinitas redes de relações e de acontecimentos. Veja-se a simples rede social – Facebook, que demonstra os amigos que temos em comum com alguém e, sem darmos conta, todos temos alguém em comum com alguém. E isto deve fazer-nos realmente pensar, a todos. Por agora, gostaria que pensássemos no impacto positivo deste “chapéu” que tapa todas as cabeças e que nos define como seres com “coisas” em comum. Esta ideia devia ser determinante nas nossas relações e até naquilo que fazemos e como pensamos a vida uns dos outros. Se estamos todos debaixo do mesmo chapéu, devíamos todos preocuparmo-nos em crescer em altura de uma forma similar para que fosse possível um encaixe harmonioso, de todos, neste mesmo chapéu. Digo isto porque preocupa-me a falta de sentido do “outro”, a ideia, calculista, de vingar mais do que o outro ou a tendência para a exposição das fraquezas dos outros. Preocupa-me, em simultâneo, uma certa ideia, fatalista, de que “se não consigo fazer mais é porque não tinha que ser eu”. Inquieta-me também saber que, na nossa responsabilidade enquanto seres no mundo, às vezes depositamos esperanças, expetativas e ideias em “tempos”, “espaços” e projetos que não nos levam mais longe, que não nos promovem enquanto seres no mundo.
É preciso perceber esta mundividência, entre tantos motivos, até para nos abrir ao diferente, à multiplicidade, às formas distintas de nos apresentarmos perante os outros, à aceitação, à integração do “outro” na “minha” vida. Não de uma forma desumanizada, onde vale tudo e às tantas não vale nada, mas de uma forma positiva, onde eu me permito conhecer “o outro” que me fala de si e das suas experiências no mundo.
Para este reinicio, desejo que consigamos “sacudir” a poeira do individualismo, das ideias fechadas e antiquadas, da falta de visão do mundo e do egocentrismo doentio que não nos faz progredir no sentido do bem comum. ◄

  • Publicado no Jornal PALAVRA, edição de outubro 2021