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Tantas Marias no meu país

Conhecemo-nos acidentalmente, no sentido literal do termo, numa das salas de cinema da cidade. A sala estava imersa na escuridão e o grande ecrã começava a emitir as primeiras letras acompanhadas de flashes de luz dourada, que pareciam dançar ao ritmo forte de uma música, alimentada essencialmente por instrumentos de percussão. O espetáculo ia começar! Adoro cinema!
Chegou sozinha, quase a corricar, e de forma desajeitada, ao sentar-se, entornou o grande balde de pipocas que trazia, para cima de mim. Assustei-me, esbracejei e em tom pouco amistoso proferi algumas interjeições de desagrado. Detesto que façam barulho no cinema, detesto que comam pipocas e mais que tudo, detesto que as pipocas caiam em cima de mim.
A luminosidade ténue do ecrã onde desfilavam as primeiras cenas do que se previa ser um bom filme, não me deixavam ver o seu rosto com clareza. Tinha cabelo curto encaracolado, média estatura e acredito veemente que tenha ficado roborizada a julgar pelo tom de voz comprometido com que se desculpou. Sacudindo as pipocas de cima de mim (o que só piorou o meu estado de humor), com gestos rápidos e pouco eficazes, pediu desculpas repetida e exageradamente, manifestando um comportamento que me pareceu no mínimo exagerado. Sentia-me desconfortável com as sacudidelas que me dava e foi preciso ouvir-se um enorme “Psiu” vindo não sei de onde, para que se acalmasse e se sentasse no lugar a meu lado. Ainda hoje estou agradecida à pessoa que em boa hora se lembrou de dizer “Psiu”.
Ignorando a sua presença, fixei os meus olhos no ecrã, procurando compensar as cenas irremediavelmente perdidas, numa tentativa de compreender o enredo. Ficámos em silêncio durante todo o filme.
Quando as luzes se acenderam cruzámos o olhar e pude ver o seu rosto. Sorriu-me timidamente e voltou a pedir-me desculpa pelo sucedido; retribui o sorriso de modo cordial, e, mentindo, disse que não fazia mal.
Para alimentar a fama que me carateriza, cheguei atrasada. Entrei no edifício em passo apressado, tirei a senha, dirigi-me ao balcão e depois de cumpridas as formalidades da situação, caminhei para o corredor verde e sentei-me perto do gabinete à espera da minha vez. Tirei o telemóvel da mochila e aproveitei para ver as mensagens que, entretanto, tinha recebido. Completamente absorta no pequeno dispositivo e nas informações que ele me dava, senti que alguém ocupou o lugar a meu lado. Contrariamente ao que habitualmente faço, não olhei e mantive o foco no que estava a fazer, quando subitamente alguém me diz, “olá, hoje não tenho pipocas”. O mundo é realmente pequeno. Era ela, a rapariga que algumas semanas atrás me tinha sujado, sacudido e aborrecido; sorri de modo genuíno e cumprimentei-a. O incidente estava ultrapassado.
O tempo de espera para a consulta foi curto para descobrir e explorar todas as similitudes entre nós; gostamos muito de cinema (exceto comédia) e de jazz; temos carcinoma basocelular, o mesmo dermatologista e já fomos operadas várias vezes; somos católicas e sportinguistas; não falámos de partidos, mas tem pinta de social democrata como eu; rimos do incidente das pipocas e contei-lhe do meu aborrecimento e do desconforto das sacudidelas; falámos do presente, dos sonhos adiados e das dificuldades do quotidiano.
A Maria, é este o seu nome, tem menos 25 anos do que eu; é natural de Mafra, filha única, solteira e professora do ensino secundário numa escola da cidade. Dá aulas há 12 anos, já passou por vários agrupamentos, uns mais longe outros mais perto, vive os dramas de todos os professores, mas apesar disso gosta muito do que faz. Veio para o Alentejo atrás de uma promessa de casamento que não se concretizou, porque um dos protagonistas (que não ela), faltou à promessa. Comprou um T1 na cidade, decorou-o com carinho, contraiu um empréstimo e a entrada inicial foi oferecida pelos pais e pela avó materna.
A subida das taxas de juro obrigou-a a modificar o seu estilo de vida e a adotar medidas adicionais, porque o ordenado é baixo demais para suportar o aumento exagerado da prestação mensal do crédito à habitação. Por vezes pede um adiantamento do vencimento aos pais, quando surgem despesas extra, fazendo sempre questão de pagar a divida, habitualmente com meses de atraso. Vendeu o carro, o que lhe deu uma pequena margem orçamental e cancelou o seguro de saúde, porque todos os cêntimos contam. Não tem médico de família há 4 anos, mas está grata ao SNS porque não a abandona na gestão do seu carcinoma basocelular. Adora pipocas, é otimista por natureza, mas tem plena consciência da fragilidade da sua situação económica; sente a sua independência ameaçada e pela primeira vez desde que saiu de casa dos pais, experimentou na pele o sentimento de revolta por não conseguir comprar uns sapatos da marca Alma em Pena.
É no meio deste chorrilho de confidências que chamam por mim, estava na minha vez da consulta. Levantei-me, disse “até já” e entrei no gabinete. A Maria entrou depois de mim, despedimo-nos com um abraço e não voltámos a falar.
Porque naquele dia tinha tempo, a temperatura estava amena e até me apetecia andar, resolvi apanhar o autocarro para casa no terminal rodoviário, coisa que não faço habitualmente. Procurei a pista nº7 onde estava parado o autocarro que me interessava, e de repente vi-a. Para além da mochila às costas e um trolley preto encostado às pernas, estava ladeada de dois grandes sacos de aspeto robusto. Achei-a abatida e com ar de cansada.
Chamei-a, “Maria!”. Virou-se na minha direção, fez um sorriso rasgado e ficou parada a olhar para mim. Fui ter com ela e ali mesmo fizemos festa. Depois, entre sorrisos tristes e olhos lacrimejantes contou-me o último capítulo do seu sonho desfeito. Colocada a dar aulas no distrito de Portalegre, sem carro para se deslocar, transportes incompatíveis e/ou inexistentes e sem suporte financeiro para alugar um misero quarto e simultaneamente pagar a prestação mensal do crédito à habitação, a Maria ia partir. Decidiu alugar a sua casa, aquela que tinha decorado com carinho, com todos os seus pertences, para evitar perdê-la. Recusou o lugar na escola pública e arranjou vaga num colégio privado perto de Mafra; ia ganhar um pouco menos, mas tinha trabalho.
Aos 35 anos de idade, a Maria regressava a casa dos pais. Limpou as lágrimas que, entretanto, tinham caído, e com o otimismo que a caraterizava, afirmou: “a vida derrubou-me, mas não me venceu”.
Abracei-a, no meio da mochila, do trolley e dos sacos, sem dizer uma palavra. Deu-me um beijo rápido e caminhou para o autocarro que a levaria para Lisboa. Ao subir os degraus, mesmo antes de entrar, gritou: “Fátima, eu vou voltar”. Meneei que sim com a cabeça e fiquei a vê-la partir, ao mesmo tempo que pensava nas muitas Marias do meu país. ◄

 

  • Publicado no Jornal PALAVRA, edição de outubro 2023

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