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vinte e cinco

Não há tempos mais ou menos ideais para pensar Abril – mais um ano que passou e, aqui chegados, importa como sempre importou olhar para as conquistas de Abril e as promessas e lutas ainda por alcançar. Temos, hoje, mais de uma dezena de deputados da extrema-direita sentados naquele que deve ser o lugar da democracia, e temo-los entre nós numa altura em que o regime democrático existe há mais tempo do que existiu ditadura em Portugal. Em simultâneo, vemos comprometida a memória daqueles que foram fundamentais para a revolução, pela força quer das declarações mais infelizes – ou, diríamos, menos claras – a propósito do posicionamento perante a Rússia, quer do árduo esforço dos média em trabalhar uma imagem irrealista das posições de partidos como o Partido Comunista.
No meio desta azáfama, não deixa de ser importante, por isto, pensar Abril, celebrá-lo, torná-lo e mantê-lo presente. Arrancaram já as comemorações, que se prolongarão até 2026, dos cinquenta anos da Revolução dos Cravos, e mais do que nunca urge celebrar o maior feito e, de tantas maneiras, o mais frágil: a conquista da nossa liberdade. Pela primeira vez em dois anos, poderemos sair à rua de peito mais leve e respiração mais solta (com o devido distanciamento social e habituais cautelas, naturalmente!), ainda que de coração pesado por tudo o que temos vindo a acontecer aqui tão perto, e pesado, também, por tudo o que vemos acontecer também tão longe, verdadeiros atentados àquilo que saímos à rua para celebrar. Mas sairemos, por certo, porque foi na rua, nas ruas, que a liberdade se ganhou, e pela mão de tantos, e tantas, que fizeram por a alcançar.
É sempre um dia bonito, de encontros e reencontros, gritos e musicalidade, festa e pujança para o que mais há a conquistar.
Mas é um dia também sóbrio, de introspeção e reflexão coletiva, precisamente por sabermos o fácil que se tem provado ser andar às arrecuas: não porque vimos a nossa liberdade enjaulada em confinamentos e máscaras, não (em certa medida, foi uma espécie de celebração da liberdade dos que nos rodeiam, protegermo-nos a nós e aos outros); às arrecuas, sim, porque vimos e vemos cada vez mais a crescente onda, aqui e no mundo, de perigosas ideologias a materializarem-se a velocidades alucinantes: falei-o acima pelos assentos parlamentares de verdadeiros atentados à democracia – leia-se, Chega –, mas também por tudo o que antecedeu à cedência desses assentos (desde saudações nazis a incontáveis propostas antidemocráticas, a ataques a toda e qualquer minoria que se digne a simplesmente existir).
Abril é um mês bonito, o dia 25 um dia de comemoração e festa. Que pensemos sempre nele, com respeito e carinho, mas também com garra e seriedade. Que o abracemos como nosso, porque o é, mas que não o tomemos como certo – que o queiramos mais forte e robusto, e não uma memória ténue daquilo que não mais é: porque o é, hoje e sempre, até querermos. Que o queiramos sempre, por tudo de bom quanto trouxe – e traz. ◄

  • Publicado no Jornal PALAVRA, edição de abril 2022