No final do dia 22 de junho, com 63 casos positivos de Covid-19 em utentes e funcionários do lar da Fundação Maria Inácia Vogado Perdigão Silva, chegaram a Reguengos de Monsaraz doze voluntários. Prontos a entrar ao serviço, depois de 24h para reconhecimento do espaço que os ia acolher nos próximos 15 dias, iniciaram o primeiro turno. Entraram na Fundação às 16H de dia 24 e depararam-se com uma barafunda. Chegaram precisamente no dia em que os idosos que inicialmente tinham testado negativo para a Covid-19, testaram, num segundo exame, positivo. “Estava toda a gente muito confusa… Estava muita coisa a mudar e eles [funcionários] a decidir o que é que ia acontecer”, revela António Novais. Licenciado em Direito há cerca de um mês, planeava ir para a Grécia durante um ano fazer voluntariado com refugiados. Por força do vírus as fronteiras fecharam e viu-se obrigado a ficar em Portugal. Pouco tempo depois de iniciar as férias, ainda a tentar estabelecer novos planos, foi chamado para liderar a equipa que iria para Reguengos de Monsaraz. No meio de toda a confusão e incerteza, António pediu a opinião da mãe, que lhe disse que “ia ficar arrependido se não fosse, porque ia ficar a pensar nisso durante uma data de tempo”, revela entre risos. Como as mães estão sempre certas, António não pensou duas vezes e, partindo de Coruche, embarcou numa das maiores aventuras da sua vida.

COmVIDas: uma rede de apoio

O projeto COmVIDas, criado aquando do surgimento dos primeiros casos de Covid-19 em Portugal, nasceu de forma espontânea. Um grupo de jovens (maioritariamente universitários) percebeu que fazia falta nos locais mais afetados pelo vírus. Tendo formação na área da saúde, os amigos tiveram como primeira experiência o lar de Foz Côa. Eventualmente foi necessária uma segunda missão e, após dois envios tão bem-sucedidos, o projeto arrancou e evoluiu. Os interessados em fazer voluntariado preenchem um formulário disponível na internet e, a partir desse momento, é criado um banco de voluntários. O próximo passo é enviar os inscritos para as instituições (maioritariamente ligadas a idosos) que solicitaram ajuda. E assim, como que por magia, é criada uma equipa jovem, proativa e com vontade de ajudar. A logística e os custos são assegurados pelo projeto. No que toca à equipa destinada a Reguengos, o alojamento foi na Residencial O Gato, que também garantiu a alimentação. Ao longo destes quinze dias, a residencial, que tem lugar no coração da cidade, recebeu inúmeros voluntários além dos do projeto COmVIDas, como foi o caso dos voluntários da Cruz Vermelha Portuguesa. Antes de chegar a Reguengos, todos tiveram direito a uma longa formação online através da plataforma Zoom. De acordo com António, a equipa é apoiada por um enfermeiro do Hospital Santa Maria que explica todas as normas de segurança e faz uma “formação gigante” sobre tudo aquilo a que é preciso dar atenção: como vestir e despir o equipamento de proteção individual (EPI), aquilo que deve ser feito aquando da chegada a casa, que tipos de cuidados devem ser tidos em conta no que toca ao contacto com todas as pessoas, entre outros. O passo seguinte dos doze voluntários foi realizar os testes. O ponto de encontro definido foi Lisboa, local onde todos tiveram contacto com as zaragatoas, de forma a conferir que todos estavam seguros e aptos a iniciar o voluntariado. O próximo destino foi Reguengos de Monsaraz.

As caras (e os sorrisos) por detrás dos EPIs

Para quem vê de fora, cada um destes doze voluntários é igual. Entre fatos brancos, máscaras, viseiras e óculos, toucas, proteções para os sapatos e dois pares de luvas, torna-se difícil distinguir aqueles que, agora mais que nunca, sorriem com os olhos. Os estudantes de arquitetura, enfermagem, economia, gestão, medicina, sociologia e os trabalhadores das áreas de ciências farmacêuticas e produção audiovisual, partiram de várias zonas do país. Locais como Lisboa, Vendas Novas e Coruche viram os jovens (de entre 20 e 36 anos de idade) dizer “sim” a este projeto. Os três Luíses, António, Fábio, Sandra, Carlos, Diogo, Mafalda, Leonor, Margarida e Jhonatha formaram esta equipa de pessoas tão diferentes e com experiências tão variadas. Para António “às vezes era complicado perceber onde é que cada um se encaixava”, uma vez que existiam grandes contrastes entre os voluntários: uns mais meticulosos e outros mais desleixados; uns sempre prontos para fazer a festa e outros que preferiam manter a serenidade. Para o líder do grupo estes aspetos tão opostos acabaram por se complementar e, simultaneamente, permitiu-lhes trabalhar o respeito mútuo: “O que é giro é que acabámos por nos dar todos muito bem porque vamos respeitando o outro e percebendo que há coisas que temos que aprender e coisas que nos chateiam, mas que temos de respeitar”. O grupo acabou por criar uma ligação intensa e foram estas características que permitiram a António, Sandra e Luís garantir que cumpriam os deveres académicos e profissionais que tinham deixado para trás. “Arranjei uma entrevista [para um estágio numa sociedade de advogados] assim à maluca”, relembra o líder do grupo. Sabia que tinha que procurar algo para fazer depois do voluntariado e nem estar em Reguengos o impediu. A entrevista, realizada enquanto estava em Reguengos, foi “precária”, como afirma António, uma vez que a roupa possível se baseou numa camisa que por acaso tinha trazido de Coruche e umas calças de pijama. Já Sandra, que tinha a seu cargo explicações por videochamada, também não parou. Por sua vez, Luís, que estava a fazer Erasmus no Perú, viu-se obrigado a entregar trabalhos diariamente e a realizar exames importantes durantes estes quinze dias, de modo a poder terminar o semestre. Refletindo agora, nem o líder sabe como os voluntários conseguiram gerir o cansaço provocado pelos turnos e pelo estudo, mas admira a sua forte de vontade e dedicação.

Missão: o conforto no meio do caos

Às 7H30 os primeiros voluntários saíam da residencial. O primeiro turno (assegurado por três voluntários) começava às 8H e terminava às 16H, sendo substituído por mais três voluntários que ficavam até às 24H. Por último, entravam três novos voluntários que, assegurando o turno da madrugada, ficavam até às 8H do dia seguinte. Quando chegavam ao lar, a sua missão era, como relembra António, “ajudar no que fosse preciso”. Os jovens ajudavam a dar os pequenos-almoços, a fazer as higienes nas camas, a mudar as fraldas e, a função preferida, asseguravam a parte social: conversavam, jogavam dominó e cartas e ouviam música. Para o líder, a parte de maior desconforto eram os banhos e a muda das fraldas. No entanto, reconhece que não é assim tão difícil e que “na altura é tão natural… E é preciso fazer e nós fazemos!”, confessa orgulhosamente. Raros eram os voluntários que sabiam como fazer estes procedimentos. À exceção de Fábio (aluno de enfermagem), fraldas e higienes eram novidade. No entanto, as primeiras vezes que o fizeram, foram acompanhados. “Das primeiras vezes que fizemos fomos sempre acompanhados por uma funcionária do lar e o Fábio também nos ensinava a fazer, por isso fomos aprendendo com a prática”, afirma António entre risos, continuando que “a primeira vez é a que custa mais e é diferente, mas depois à quinta já é tranquilo”. No lar da Fundação estavam presentes inúmeras organizações e voluntários, o que originava diferentes formas de trabalhar. Para o representante do projeto COmVIDas “o nosso foco é diferente do das outras pessoas”. O facto de terem uma capacidade diferente para perceber qual era a missão maior a eles próprios, levava-os a trabalhar de forma mais focada na pessoa em si e menos no trabalho. Para António isto pode ser positivo ou negativo: “Se calhar demoramos mais tempo a fazer algumas tarefas, mas quando fazemos gostamos que as pessoas sintam que estão em casa”. No entanto, apesar das diferenças no que toca à abordagem, conseguiram organizar bem as funções entre todos, acabando por respeitar a forma como todos trabalhavam e a missão de cada um no lar. “É inacreditável ver quantas pessoas foram ajudar! Houve muita gente muito boa a investir o seu tempo para poder ajudar a Fundação”, conclui o estudante.

O peso nos ombros de quem lidera

Para António ser líder significa que é a “pessoa que abre caminho” e, por vezes, a responsabilidade pesou mais nos ombros: “o que eu fizer é o que eles fazem. Se eu tiver com o foco naquelas pessoas e a dar o meu máximo, eles também vão fazer o mesmo”, confessa. O projeto recomendava que o líder não se envolvesse tanto na instituição para poder assegurar as compras e a logística mais à vontade. No entanto, saiu-lhes a sorte grande. Ao ficar a viver na residencial O Gato a alimentação era assegurada e, como tal, o líder teve a oportunidade de “pôr mãos à obra, que é isso que eu também gosto”, revela. Ao longo das duas semanas que esteve ao serviço, António pôde refletir sobre a sua missão. Afirma que “às vezes era um bocadinho frustrante”, mas percebeu que, apesar de estar mais recolhido e fazer o trabalho por detrás das cortinas, é a pessoa que assegura e dá condições para que o resto dos voluntários passa dar o seu melhor. Para o líder, perceber isto foi essencial para viver bem a missão, podendo crescer e perceber que era também nos outros voluntários que podia ganhar força para ser e fazer melhor.

O medo não teve lugar

No coração do líder, o medo nunca teve lugar. Mas houve alturas em que se apercebeu da sua impotência. “Nós somos tão pequeninos e tão pouco que parece que o problema é tão superior a nós… É um vírus; uma coisa gigante!”, reflete. Para António foi difícil lidar com a sensação de que “é uma coisa que leva vidas” e que há pouco que possamos fazer contra isso. Mas, com a atitude positiva que o caracteriza, afirma que a sensação de impotência também se combate. “Combate-se percebendo que, no fundo, se for mesmo para levar a vida, que seja um fim de vida digno… e nós estamos lá para isso!”. O resto – todas as outras consequências ou possíveis riscos – eram “problemas para o futuro”, afirma entre risos. “Havia [no lar] muitas outras coisas relacionadas com a esperança”, e foi esse o foco de António.

Aprender a confiar

Com a experiência que viveu, António retirou três conclusões: a importância de deixar os problemas para o dia seguinte, de criar ligações com as pessoas e de aprender a confiar. Por vezes, a confiança faltava-lhe e agora percebe a importância de confiar em si (e naquilo que tem para dar), nos outros (porque fazem o seu melhor para aquilo a que foram chamados) e em Deus (acreditando que a missão dará frutos). Ao logo das duas semanas, e num projeto sem qualquer base religiosa, o grupo percebeu que tinham uma fonte de confiança e alegria em comum nas suas vidas: Deus. Antes de iniciar as refeições, António tinha por hábito abençoar a comida. Eventualmente, começou a “perceber que havia mais gente a fazê-lo e percebemos que quase todos éramos católicos”. Foi uma questão de tempo até entrar em contacto com o Padre Manuel José e domingo, às 23H, estavam todos juntos na igreja.

E agora?

Quinze dias depois da experiência que mudou as suas vidas, os dozes voluntários chegaram à Serra da Estrela. O último turno foi dia 8 de julho e no dia seguinte partiram para um dos locais mais frios de Portugal, prontos para cumprir o isolamento. António revela que, mesmo ao lado da enorme casa que agora habitam, existe um rio tranquilizante. Além disso, têm quem lhes leve as refeições a casa, garantindo um isolamento total, de modo a que, no dia 23, possam regressar para as suas famílias. Para trás ficaram idosos, funcionários e amigos, e nos corações está uma nova forma de ver a vida: “Perdeu-se muita coisa e, infelizmente, muitas vidas, mas também se ganhou muita coisa! Agora olho para os meus amigos e para a minha família e vejo tudo o que tenho… Olho para esta vida um bocadinho mais normal e percebo a sorte que tenho e que tenho que aproveitar!”, confessa António com alegria contagiante. Os próximos quinze dias serão de reflexão e introspeção, na esperança de perceber, a fundo, o impacto que estas duas semanas tiveram na vida de doze pessoas. ◄

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